Diários da COP-21 (IV): Quase um conto de uma COP partida

O dia amanhece preguiçoso em Paris. Quando o sol finalmente aparece, já estou entrando na Gare du Nord escutando do amigo verde chileno de longa data de que o pessimismo ronda as delegações. A perspectiva de um acordo ambicioso está ficando mais longe, assim como Paris na janela do trem. Estamos chegando na estação de Le Bourget, a sede da COP que se insinuava a mais importante dos últimos anos. Pegamos o ônibus que nos conecta aquela babel de esperança, desejos, desconfianças e conflitos. Nós temos crachás que nos garantem acesso a Zona Azul (área das delegações oficiais). Meu amigo não sabia que existe, lá no fundo do imenso espaço em Le Bourget, a Zona Verde, área destinada a sociedade civil e que não necessita credenciamento.

 

Passamos pela revista, conferiram nossos crachás e já estávamos bebendo nosso café no meio dos imponentes pavilhões oficiais, que propagandeam todos os dias que não temos com o que nos preocupar, quando o valente Manuel Baquedano lamenta a falta de protagonismo do Brasil e se surpreende ao saber que são 900 delegados oficiais brasileiros (eu não sou um deles, represento os Partidos Verdes do mundo). “São invisíveis”, constata meu “compa”.

 

A caminho da sala número 4, soube que a Ministra Isabella Teixeira desentendeu-se com os prefeitos na reunião fechada. Expôs a fragilidade de um governo titubeante que será incapaz de realizar os compromissos (modestos) que estamos apresentando ao mundo.

 

Dentro da sala 4, ministros de estado contabilizam suas vitórias ao estabelecer programas de educação voltados para o enfrentamento da crise climática. Uganda deve ser um modelo, assim como Itajaí, citada com orgulho pela Secretária de Estado da República Dominicana. Talvez eu esteja preocupado à toa, penso jocoso.

 

Reencontro meu amigo que quer conhecer a Zona Verde. Crachás checados, nossas fotos borradas aparecem na tela do policial. Seguimos o caminho de madeira com o frio cortando nossas ideias. Nova revista e já estamos na Zona Verde. Mais quente que a Azul, pela calefação acima da média e pela vibração de ONG´s e ativistas que tomam a responsabilidade de mudar os rumos do planeta pelos dentes.

 

Apresentam soluções práticas de como combater os efeitos da crise climática, os números frios dos governo não lhes interessam. Uma bicicleta gerando energia para um suco, um dj misturando batidas eletrônicas ao canto tradicional tibetano. Um plano de resiliência autogestionado, uma mini-marcha contra os grandes poluídores. “Kick them out”, gritam regozijosos.

Meu amigo, com mais de 50 anos de ativismo ambiental, me agradece emocionado: “obrigado por ter me trazido aqui, finalmente me sinto em casa”. Me despeço pensando em quando (e como) vamos criar as pontes entre as zonas Azul e Verde. Entendo que não será possível criar soluções sem estabelecer diálogos entre o ativismo vibrante da Zona Verde com os relatórios frios – embora essenciais – da Zona Azul. Ajeito meu cachecol, entro no ônibus que vai me levar de volta ao metrô rumo ao hotel em Paris. Sigo sendo um otimista, constato antes mesmo de chegar à minha estação.

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FABIANO CARNEVALE é Secretário de Relações Internacionais do Partido Verde, Co-Presidente da Federação dos Partidos Verdes das Américas e Delegado oficial da Global Greens na COP-21.

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