NO FUTURO, OS TRANSMISSORES DE DOENÇAS VENCEM A HUMANIDADE, TUDO PORQUE NÓS DESTRUÍMOS FLORESTAS E RIOS E LAGOS

Folha da Manhã, 31 de janeiro de 2016

O novo terrorismo
Arthur Soffiati

Nasci em 1947, depois de terminada a Segunda Guerra Mundial. Não vivi as guerras posteriores a 1945, mas, de certa forma, acompanhei todas elas. Quando criança, ouvia muito falar na Guerra da Indochina. Pré-adolescente, eu estava mais atento à guerra de independência da Argélia, assim como às guerras de descolonização da África e do que restou de colônias europeias na Ásia. Prestando serviço militar, fiquei de prontidão por conta da Guerra dos Seis Dias entre Israel e países Árabes.
Já adulto, inteirei-me dos conflitos associados à Guerra Fria. Até escrevi sobre muitos deles. Acompanhei o fim dela e a emergência de uma nova ordem ou desordem mundial. Na segunda década do século XXI, a área mais importante dos conflitos mundiais era o Oriente Médio. A Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) não conseguiu mais o mesmo prestígio de que gozou durante a Guerra Fria, mas continuou atuando em defesa dos países capitalistas, ostentando como argumento a defesa do mundo livre e da democracia.
Pouco a pouco, a ameaça de organizações terroristas no Oriente Médio e na África foi substituída por uma ameaça maior e difusa: as epidemias causadas por vetores invertebrados e vertebrados. Houve um tempo, eu contava com cerca de 70 anos, em que o “Aedes aegypti” se tornou uma grande preocupação dos países chamados “emergentes” pelos vírus transmitidos por esta espécie africana de mosquito.
Apesar das muitas doenças transmitidas por uma quantidade enorme de invertebrados picadores e de aves, principalmente, cheguei aos 80 anos de idade sem contrair nenhuma doença. Pernilongos, mosquitos prego, muriçocas, carapanãs, fincões, fincudos, sovelas, bicudas, piuns, maruins, percevejos, moscas, baratas, formigas e uma legião de outros insetos e aracnídeos, juntamente com aves, passaram a ser vetores de doenças.
Entre 2001 e 2020, as organizações terroristas foram desmanteladas por coalizões dos Estados Unidos, União Europeia, Rússia, China, Austrália, Japão e Canadá. Por fora, corria a nova ameaça das epidemias na Índia, Bangladesh, Oriente Médio, países africanos e latino-americanos. No lugar da OTAN, os países das coalizões contra o terror fundaram a Organização contra Doenças Epidêmicas (ODE), que se outorgou o direito de intervir em países onde os governos e a população perderam o controle sobre epidemias.
O nível de vida (chamado de qualidade de vida no início do século) desses países declinou muito. As mudanças climáticas produziram muita oscilação entre chuvas e estiagens. As temperaturas se elevaram. Estes fenômenos ocorreram em todo o planeta, mas, nos países outrora classificados como emergentes, os resultados dessas mudanças foram mais agudas. Deve-se considerar que o desmatamento, neles, acabou reduzindo as florestas a taxas mínimas. As espécies hospedeiras de vírus, bactérias, protozoários e fungos invadiram as cidades, cujo crescimento foi caótico.
Em tempos de chuvas torrenciais, as cidades acumulam água em locais mínimos, quase imperceptíveis. Nas estiagens, a população reserva água. Com chuva ou com seca, os vetores de doenças se multiplicaram. O combate vem se mostrando ineficiente desde 2010. Dezessete anos depois, tem-se a impressão de que a guerra foi perdida. O mapa das epidemias coincide com os países latino-americanos, africanos e parte dos países asiáticos.
Os países ricos ou enriquecidos não estão mais conseguindo conter as epidemias do antigo Terceiro Mundo nem os doentes. Invertebrados e aves transmissoras se aclimataram. A globalização facilita este processo: vetores e doentes se espalham por todo o planeta. Os países pobres chegaram a convocar as forças armadas para combater os transmissores, mas elas perderam a guerra.
Alegando incapacidade de debelar a dengue, a chicungunya, a zica, a gripe aviária, o ebola e muitas outras doenças, a ODE tomou a decisão de intervir nos países em que essas doenças emergiram. Mas os países de ODE também estão perdendo a guerra contra o novo terror. No princípio, os países da organização recomendaram que seus cidadãos não viajassem para os países pobres, sobretudo as crianças, as grávidas e os idosos. Agora, proibiram a saída de todo e qualquer cidadão. Acontece que não foi possível impedir a entrada de vetores nesses países. Eles entraram por containers, ocultos em porões de navios, aves migratórias e até por aviões. Nem mesmo o desenvolvimento de animais transgênicos conseguiu conter as epidemias.
Hoje, os governantes reconhecem que o combate seria mais fácil com os predadores naturais dos vetores e com cidades mais ecológicas. Acontece que os inimigos naturais foram, em grande parte, extintos e as cidades cresceram rompendo equilíbrios ecológicos. Além do mais, o aumento da temperatura favorece os transmissores, inclusive nos polos da Terra. No ano da graça de 2027, a humanidade tem a sensação de fim dos tempos. Da minha parte, acho que já vivi muito.

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Uma resposta para “NO FUTURO, OS TRANSMISSORES DE DOENÇAS VENCEM A HUMANIDADE, TUDO PORQUE NÓS DESTRUÍMOS FLORESTAS E RIOS E LAGOS

  1. Talvez tenhamos esquecido dos pássaros das cidades. Também sou da década de 40 (44) e quando criança eu gostava de observar os pardais pousados nos fios da rede elétrica. Frequentemente levantavam voo, pegavam com o bico algo que eu não conseguia enxergar e pousavam novamente. Eram esses insetos que eles comiam. Também as andorinhas que voando em conjunto, num balé aéreo magistral, faziam o mesmo que os pardais. Onde eles e elas estão agora?
    Nós os exterminamos (pesticidas, fumacês, etc). Consequencia – desequilíbrio ecológico.É o preço.

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