Atualizando os conhecimentos sobre o manguezal do Paraíba do Sul

Pela teoria de Alberto Ribeiro Lamego, a primeira foz do Rio Paraíba do Sul situava-se entre o Cabo de São Tomé e a atual Barra do Furado (LAMEGO, Alberto Ribeiro. Geologia das quadrículas de Campos, São Tomé, Lagoa Feia e Xexé. Boletim n. 154. Rio de Janeiro: Departamento Nacional da Produção Mineral/Divisão de Geologia e Mineralogia, 1955). Pela teoria vigente hoje, o rio alcançou o mar exatamente no ponto em que hoje se localiza (MARTIN, Louis; SUGUIO, Kenitiro; DOMINGUEZ, José Maria Landim e FLEXOR, Jean-Marie. Geologia do Quaternário Costeiro do Litoral do Norte do Rio de Janeiro e do Espírito Santo. Belo Horizonte: CPRM, 1997). O encontro da água doce de um rio com a água salgada do mar forma um estuário. Se esse estuário se encontra na zona intertropical, pouco acima ou abaixo dela, é comum encontrar nesse ecossistema aquático o ecossistema vegetal conhecido em português com o nome de manguezal.

O Rio Paraíba do Sul deságua no Oceano Atlântico na zona intertropical. No seu estuário, desenvolveu-se expressivo manguezal, que já foi bem maior no passado. O delta do rio tem característica particular: a volumosa composição aluvial por sedimentos argilosos carreados da zona serrana e da formação barreiras. Tais sedimentos conferem mais consistência ao substrato, menos lamoso que a maioria dos estuários. O volume de água doce é também expressivo, permitindo o desenvolvimento de espécies vegetais pouco tolerantes à salinidade, como “Montrichardia arborecens”, popularmente conhecida como aninga ou linga.

paraibadosul1População de aninga na frente de área de manguezal desmatada. Ao fundo, o manguezal. Foto do autor

Se o manguezal do Paraíba do Sul é menor que o da Baía de Guanabara, certamente é mais diverso que ele. Três espécies exclusivas de manguezal são encontradas no estuário do grande rio: “Laguncularia racemosa”, “Avicennia germinans” e “Rhizophora mangle”. Além da “Montrichardia arborecens”, já mencionada, ocorrem ainda “Typha domingensis” (taboa) “Acrostichum aureum” (samambaia do brejo), “Talipariti pernambucense” (algodoeiro da praia), “Anonna glabra” (mololô), “Spartina alterniflora” (praturá) e espécies exóticas, como jamelão (“Syzygium cumini”), amendoeira (“Terminalia catappa”) e casuarina (“Casuarina” sp.), cujas sementes são trazidas pelo fluxo do Paraíba do Sul. A casuarina chega mesmo a crescer em águas salobras.

paraibadosul2População de taboa em local de água com baixa salinidade. Foto do autor

Quanto aos tipos fisiográficos de manguezal, encontramos as três feições reconhecidas pelos estudiosos (CINTRÓN, Gilberto e SHAEFFER-NOVELLI, Yara. Introducción a la Ecología del Manglar. Montevideo: Oficina Regional de Ciencia y Tecnologia de la Unesco para América Latina y el Caribe/UNESCO, 1983): manguezal ribeirinho (predominante), de bacia e de borda. O estuário do Rio Paraíba do Sul se localiza numa grande restinga que ele ajudou a construir. O jato constituído por sua descarga líquida reteve areia transportada pelo mar numa das margens. A areia que venceu o jato depositou-se na outra margem. Não há nenhum retentor sólido, como uma ponta de pedra, por exemplo, para capturar a areia. A foz é um local de construção e destruição muito acentuado. Ilhas se formam, unem-se e são dissolvidas pelas forças da água. As mais vulneráveis são as Ilhas da Convivência e do Pessanha, formadas pelo acúmulo de areia. A Ilha do Lima já apresenta um teor de argila elevado. O estuário é constituído por dois braços que alcançam o mar e por vários canais interiores.

paraibadosul3Dois pés de casuarina em praia marinha com salinidade reduzida pela água doce do rio. Foto do autor paraibadosul4Trecho de borda do manguezal do Paraíba do Sul. Em primeiro plano, um exemplar de siribeira. Ao fundo, árvore seca de siribeira morta por afogamento. Foto do autor

A área do manguezal foi reduzida, com a estrutura e a dinâmica do ecossistema sendo muito alterada no decorrer dos anos. Ele serviu para o fornecimento de lenha, como atestam muitos anúncios de jornal do século XIX. Dele, também foram retiradas árvores para tutores de plantas e para material de construção. Embora não muito intensamente, a curtição também usou cascas de árvores. A antiga e outrora famosa vila de Gargaú cresceu sobre o manguezal e às margens do menor canal defluente do rio. O crescimento continua, com o aumento de esgoto e lixo, com obras destruidoras do manguezal. O extinto Departamento Nacional de Obras e Saneamento (DNOS) dragou esse canal e lançou o material retirado em sua margem esquerda, dificultando a circulação de água no interior do manguezal. O Instituto Estadual do Ambiente (INEA) redragou o canal, praticando os mesmos erros anteriores. O acúmulo de sedimentos favoreceu a ampliação da vila.

Outra atividade completamente incompatível com o manguezal é a criação de gado. Normalmente, o substrato lamoso desse ecossistema não permite o pisoteio de animais de grande porte. Contudo, os sedimentos argilosos conferem consistência ao substrato, principalmente na Ilha do Lima. Por diversas vezes, o gado foi retirado compulsoriamente do manguezal, mas ruralistas sempre o reintroduzem.

paraibasul5Manguezal removido na Ilha do Lima para dar lugar a pasto. Ao fundo, árvores estranhas ao manguezal. Observar a consistência argilosa do substrato. Foto do autor. Na margem direita do rio, mais especificamente na margem do canal principal, a vila de Atafona quase eliminou o manguezal, hoje refugiado apenas num pontal formado pelo curso d’água e em algumas ilhas. paraiabasul6Manguezal numa das ilhas da foz do Paraíba do Sul. Foto do autor

Outrora, a captura do caranguejo-uçá (“Ucides cordatus”), muito procurado para consumo humano, era feita por braceamento. Hoje, usa-se a redinha para sua captura. Trata-se de uma espécie declinante de crustáceo na região. Há cerca de vinte anos, a captura do guaiamum (“Cardisoma guanhumi”) se intensificou para atender a demandas do mercado de Recife principalmente. Hoje, a população dessa espécie declinou sensivelmente. O aratu (“Goniopsis cruentata”) não é procurado para comercialização.

A parte mais íntegra do manguezal do Paraíba do Sul situa-se em sua margem esquerda. E a amostra mais conservada aí é o Riacho dos Macacos, nome bastante sintomático. O manguezal sofreu bastante com a estiagem de 2014-2015. A vazão de água doce diminuiu substancialmente, permitindo a invasão da língua salina sem a diluição apropriada aos manguezais. As chuvas de verão aumentaram a vazão do rio, mas não restabeleceram o volume de 2012. Mesmo assim, sua foz tem uma grande descarga de água doce.

paraibasul7Rio Paraíba do Sul na foz ao cair da tarde. Foto do autor

Na última visita efetuada ao manguezal do Paraíba do Sul (20 de fevereiro de 2016), foi possível notar que o ecossistema, no Riacho dos Macacos, já está consideravelmente sujo, ou seja, as espécies exclusivas de manguezal estão bastante entremeadas com espécies associadas.

paraibasul8Riacho dos Macacos. Na frente do manguezal, populações de samambaia do brejo e algodoeiro da praia, espécies oportunistas. Foto do autor.

Um manguezal é protegido em toda a sua extensão pelo só efeito da lei. Apenas em relação ao apicum, a parte mais salgada do ecossistema, a lei abre espaço para sua exploração econômica. Como a força da lei não basta, o manguezal do Rio Paraíba do Sul deveria ser protegido por uma Unidade de Conservação, talvez por uma Reserva de Desenvolvimento Sustentável, como propõe Edêmea Faria Carlos da Rocha em “Unidade de conservação: uma proposta de uso sustentável para os manguezais do estuário do Rio Paraíba do Sul, na região de Gargaú – São Francisco de Itabapoana/RJ –Brasil”, sua dissertação de mestrado.

Arthur Soffiati é historiador ambiental e pesquisador do Núcleo de Estudos Socioambientais da UFF/Campos

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s