Aquário à vista!

 Sônia Apolinário

Está prevista para o próximo mês de novembro a inauguração do AquaRio – Aquário Marinho do Rio. Com 26 mil m2 de área construída e tanque com 4,5 milhões de litros de água, vai abrigar uma comunidade de 8 mil animais de 350 espécies. O marketing do negócio o “vende” como sendo o maior aquário marinho da América do Sul. Foi construído na Zona Portuária, faz parte de um conjunto de equipamentos estratégicos para a revitalização daquela região e é considerado um dos “legados olímpicos” da cidade.

O aquário tem tudo para se tornar mais uma grande atração turística do Rio de Janeiro. Porém, sua chegada está longe de ser uma unanimidade. É cada vez maior o número de pessoas e instituições que se posicionam contra qualquer tipo de aprisionamento de animais para exibições como são aquários e zoológicos. A alegação é que os animais têm sua saúde sacrificada ao viverem em confinamento. Sem contar eventuais maus tratos e alimentação inadequada ou insuficiente.

O Zoológico do Rio de Janeiro representa exatamente essa situação. No início do ano, foi fechado pelo Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama). Os funcionários do órgão, que é vinculado ao Ministério do Meio Ambiente, constataram as precárias condições dos locais onde os animais se encontravam, inclusive, colocando em risco a segurança dos visitantes. E se os animais vivem em condições precárias, é claro que muitos deles não estavam nada bem.

O Zoo ficou três meses fechado e voltou a funcionar a meia bomba. Tudo por lá continua precário. O parque é administrado pela prefeitura do Rio. A atual gestão vem reduzindo, a cada ano, os investimentos no local e sonha com a chance de privatizá-lo. O AquaRio é um empreendimento privado.

No Brasil já funcionam seis aquários que rendem dividendos turísticos para suas cidades: São Paulo e Santos (SP) , Paranaguá (PR), Aracaju (SE), Natal (RN) e Belo Horizonte (MG) – este, considerado o maior de água doce do país, os demais são de água salgada. Confesso que pouco ou quase nada escuto falar sobre eles, nem para o bem, nem para o mal.

O AquaRio, se cumprir tudo o que está prometendo, deve se tornar a grande vedete do segmento, no país. Seu tanque principal terá 3,5 milhões de litros de água, sete metros de pé-direito e um túnel passando por seu interior. Vai possibilitar mergulhos reais entre peixes, raias e tubarões. Outros  24 tanques secundários e três “tanques de toques” permitirão ao público interagir com alguns dos animais expostos. O que será que os ambientalistas vão achar disso?

Meu palpite é que o público deve adorar e o AquaRio poderá vir a fazer parte das grandes atrações internacionais do gênero, ao lado de aquários famosos como o de Valência, na Espanha, tido como o maior da Europa ou o de Lisboa, muito visitado e admirado pelos brasileiros em Portugal. O maior do mundo fica na China, com 22,7 milhões de litros de água. Há ainda aquários colossais no Japão, nos Emirados Árabes (em Dubai, claro) e dois nos Estados Unidos.

Em 2013, o documentário “Blackfish” foi uma das primeiras grandes peças em defesa dos animais contra seu uso para exibição. No caso, o alvo foi o SeaWorld, organização que opera 11 parques aquáticos nos Estados Unidos. A trajetória da orca Tilikum, mantida em cativeiro por anos e treinada para shows, atraiu um público de 21 milhões de telespectadores nos Estados Unidos e causou comoção e uma onda de protestos contra essas atrações, aquários e zoológicos.

Em tese, parques aquáticos são como circos e ambos têm propósitos diferentes de aquários, que se alinham mais com a difusão do conhecimento. A questão é: com a tecnologia que temos hoje e a capacidade de reprodução de realidades virtuais e sensoriais, a captura de animais e sua exibição são necessárias para a difusão do conhecimento? Acredito que não.

Porém, o AquaRio já é uma realidade em forma de obra arquitetônica. Sua chegada renova a esperança dos cariocas para a ocupação de uma área da cidade esquecida por anos e que, ironicamente, foi seu local de origem. A zona portuária, ou Praça Mauá, já foi conhecida como Porto da Pequena África porque ali os escravos eram desembarcados e vendidos. Já a corte portuguesa aportou pela Praça 15. Durante anos, essas praças pareciam muito distantes uma da outra. As obras que criaram o Boulevard Olímpico aproximaram as duas. Pelo caminho, surgiram o Museu do Amanhã e Museu de Arte do Rio. O AquaRio completa a trilogia. E apesar de não concordar com aquários, torço para que ele seja um sucesso.

(Sônia Apolinário é jornalista. )

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s