AGRICULTURA E AGROTÓXICOS

O vilão está no ar?

Por Rochele Teixeira (uma das sete mulheres piloto agrícola no Brasil),

com exclusividade para o blogdoguida

Exatamente há 110 anos, no ano de 1906, em Paris, alçava vôo o primeiro equipamento inventado na história da humanidade que se podia chamar de avião. Este equipamento foi criado por Alberto Santos Dumont, um brasileiro! Nós, brasileiros, somos pais desta invenção que modificou o mundo. Então por que conhecemos e usufruímos tão pouco desta tecnologia?

Em 1911 os estados Unidos iniciavam o uso de aviões a serviço da agricultura. Porém no Brasil esta atividade começou apenas em 1947! Justo nós, os criadores, estávamos defasados em 36 anos de alguns outros países. Então, vamos falar um pouco sobre aviação agrícola.

O Brasil é o segundo país com maior frota de aviões agrícolas do mundo, com aproximadamente 2 mil equipamentos, perdendo apenas para os Estados Unidos que possuem quase 10 mil aeronaves. Ainda assim, apesar de termos um território significativamente menor, conseguimos ter competitividade na produção agrícola. Somos o maior produtor mundial de laranja, café e açúcar e o segundo maior produtor de soja, perdendo justamente para os EUA. Mas quando o assunto é produtividade (quantidade de grão colhido por hectare plantado) o Brasil sai perdendo. Será coincidência ou isto tem a ver com tecnologia? Vamos entender a seguir.

O uso do avião é uma excelente ferramenta para a agricultura, pois, apesar de utilizar os mesmo produtos aplicados por equipamentos terrestres, somente a aviação está sujeita à fiscalização direta do Ministério da Agricultura, ANAC, IBAMA, CREA, órgãos ambientais municipais e prefeituras, além de tratar-se de tecnologia de precisão, ser mais sustentável, e exigir um corpo técnico treinado, como engenheiro agrônomo, técnico agrícola e piloto agrícola altamente qualificado.

Funciona mais ou menos assim: o engenheiro agrônomo define o produto que vai ser aplicado para determinada cultura e assina um receituário. O técnico agrícola acompanha o preparo do produto e o manuseio, de acordo com as exigências dos órgãos citados, e o piloto agrícola se responsabiliza em aplicar de forma correta sobre o alvo, levando em consideração temperatura, umidade relativa do ar, distância de nascentes e vizinhanças, altura do voo e etc. Todo este pessoal e cuidado só existem na aplicação aérea, que, mesmo assim, com a segunda maior frota do mundo, ainda atinge apenas 25% de todas as aplicações feitas no país.

Outra vantagem da aplicação aérea é a economia de água. A aplicação muitas vezes é feita em vazões de 30 litros por hectare, enquanto a pulverização terrestre utiliza vazões médias de 200 litros por hectare. A quantidade do produto é a mesma, mas a quantidade de água é muito maior! Também somos mais sustentáveis porque temos obrigatoriedade de lavar o avião sobre um pátio de descontaminação. Regra esta que também não existe para operadores terrestres, os quais muitas vezes  pude ver pessoalmente lavando seus tanques às margens de rios.

Então, a partir de hoje, quando avistar um avião agrícola trabalhando, e logo em seguida ouvir falar em contaminação de rios e afluentes, questione-se se ali por perto não existe algum trator totalmente livre de regras e fiscalizações trabalhando!

A aviação agrícola não tem seu uso restrito à aplicação de agrotóxicos. Hoje já existem diversos produtos biológicos e naturais para combater pragas, como o caso do Metharizium, fungo utilizado largamente para combater a cigarrinha da cana-de-açúcar. Além disso, os aviões também podem ser utilizados para dispersar sementes em locais de difícil acesso, contribuindo para o reflorestamento em áreas de preservação, para combate a incêndios e para repovoamento de lagos através do lançamento de alevinos.

Atualmente o setor trava uma verdadeira batalha junto às autoridades e órgãos de saúde para atuar contra o mosquito causador das epidemias de dengue e zika vírus. Vários países como os Estados Unidos, Uruguai, Argentina e Nova Zelândia já utilizam o avião como forma eficaz de combate estes vetores. O órgão responsável, o SINDAG (sindicato nacional) luta pelo direito de efetuar testes com o mesmo produto já em uso nos tradicionais fumacês, mas esbarra em pessoas que acham muito mais saudável passar horas com o corpo coberto de repelentes químicos e na população, que muitas vezes não se dá por conta de quão alarmante é registrar 1,6 milhões de casos e um ano.

Voltando aos agrotóxicos, de uma forma geral, todos sabem que o alimento ideal, sem dúvida nenhuma, seria o alimento orgânico. Mas alguns já pararam para se perguntar o porquê da oscilação dos preços no mercado? Eu garanto que está diretamente relacionado à produtividade atingida na lavoura na hora da colheita! E hoje em dia, para plantar e colher em larga escala, e colocar muito produto nas prateleiras a um preço relativamente baixo para a população que está cada vez maior, a colheita tem que ser boa, senão a venda não cobre os custos dos investimentos que são bem caros (mão de obra, semente, maquinário, produtos para tratar a cultura, além de contar com um pouco da sorte para ter um bom clima), e mesmo com todo esse investimento, a perda média de uma lavoura com pragas ainda é bem considerável, em torno de 30%.

Para concluir, devemos alertar a população quanto ao alto índice de contaminação encontrado nos alimentos. Isso gera uma falsa impressão de que todos os produtos são prejudicais à saúde. Porém, se mudarmos um pouco o foco, veremos que, segundo dados da própria ANVISA, os produtos que mais sofrem contaminação são os hortifrutigranjeiros como o pimentão, cenoura, alface, uva, normalmente de propriedades menores, onde muitas vezes não respeitam a bula do agroquímico e suas especificidades, como quantidade, número de aplicações, e, principalmente, a carência do tempo de espera para colheita e venda.

Com todas estas informações, muitas vezes me questiono sobre qual motivo leva as pessoas de um modo geral a pensar que o avião agrícola é o vilão da história.

Acho que para todos nós cabe uma boa reflexão: viver causa impacto ambiental! E o que eu posso fazer para contribuir? Bem, eu acredito que quando Jesus falou sobre o pecado da gula, certamente não estava se referindo unicamente a comer em demasia. Penso que isto inclui uma série de medidas, como consumir menos, comprar somente o que é necessário e comer o suficiente. Afinal, tudo gera impacto!

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