VAMOS PROTESTAR CONTRA A IMPORTAÇÃO DE CAFÉ! E TAMBÉM PODEMOS USAR A OPORTUNIDADE PARA ENTENDERMOS UM POUCO MELHOR O NOSSO MODELO DE DESENVOLVIMENTO!

Faz-se necessário lembrar que exportamos grãos verdes para a Alemanha produzir café solúvel de alta qualidade e vender a vários países.
A Alemanha, sem cultivar um pé de café, se converteu em uma grande indústria de  solúvel, sobretudo com base na força de trabalho do povo capixaba e no equivocado modelo de desenvolvimento do Estado do Espírito Santo.
E quanto custa um quilo de café solúvel produzido na Alemanha com a nossa matéria-prima?
Vamos começar fazendo as contas do valor de nossa força de trabalho em relação ao que recebemos pela exportação do mesmo produto.
Quando tomamos uma xícara de café solúvel nos bares chiques da Champs-Élysées, em Paris; nos luxuosos hotéis às margens do Danúbio, em Berlim; nos aristocráticos clubes de Londres ou nos prédios dos endinheirados de Manhattan, em Nova Iorque, pagamos o equivalente a 10 kg de café verde que uma laboriosa família das montanhas capixabas ganha por sua produção e exportação.
Então, essa é a conta!
Mas, se tomarmos um cafezinho solúvel com seis amigos ou familiares na Europa ou nos Estados Unidos, o preço que pagaremos é o mesmo de um saco de 60 kg de café que recebemos por sua reprodução e exportação.
E sabe quanto gastamos de tempo de trabalhamos para produzir um saco de 60 kg de café verde?
UM ANO!
Isso mesmo!
Nós, os capixabas, levamos um ano para produzir a matéria-prima de qualidade que vendemos pelo preço de meia dúzia de cafezinhos nos países do primeiro mundo.
Assim, ao menos economicamente, o nosso tempo/ganho/trabalho de um ano vale, financeiramente, seis cafezinhos nos países industrializados.
Nós, os trabalhadores da cafeicultura  capixaba, achamos que estamos vendendo nossa força de trabalho por um valor justo. É uma inverdade!
É certo que, com a exportação de café, compramos carros do ano, implementos agrícolas, geladeiras, micro-ondas, aparelhos de tv, poltronas, colocamos energia elétrica em nossas propriedades e melhoramos o nosso padrão de vida!
Mas, para cada seis cafezinhos que o mundo se delicia, temos que produzir um saco de 60 kg de café verde e trabalhamos um ano no fator tempo/custo/benefício.
Esse é o atual modelo de desenvolvimento e de geração de riqueza e emprego do Espírito Santo, principalmente com base em nossa agricultura, mais precisamente a nossa lavoura cafeeira!
Quando tentamos implantar uma indústria de café solúvel no Estado a poderosa Organização Mundial do Comércio/OMC disse que não podíamos competir com a Alemanha e a indústria capixaba, sem apoio político, faliu.
Assim como faliu a Braspérola, entre  Cariacica e Viana, que produzia tecidos, calças e camisas de linho. E pelo mesmo motivo!
Além dessas, outras empresas do território espiritosantense que ousaram produzir manufaturados, sobretudo na área da confecção, também faliram. As que sobrevivem e por ato de heroísmo e coragem de seus proprietários.
É que, pelo nosso equivocado modelo de desenvolvinento, só podemos exportar celulose, blocos de granito, minério de ferro, pimenta do reino, macadâmia, etc.
Fazendo, novamente, as contas do café verde que exportamos para a Alemanha, para cada bloco de granito que sangram as nossas exuberantes montanhas – e também exportamos in natura para a Europa e os Estados Unidos -, recebemos o valor de apenas um metro quadrado de piso em uma obra nos países ricos.
Ou seja:
Devastamos o nosso território,  transformamos em crateras as nossas  montanhas e destruímos nossas pontes e estradas – sem falar os acidentes com inúmeras mutilações e mortes – para vender um enorme bloco de granito pelo valor de um metro quadrado de piso em uma obra na Europa e nos Estados Unidos.
Implantar uma indústria para a  exportação de produtos manufaturados no Estado do Espírito Santo é crime. E, quem ousar, quebra ou vira mendigo!
Nós, os capixabas, aprendemos a aceitar o modelo de desenvolvimento do Espírito Santo como “permitido” e a geração de riqueza com a exportação de matéria-prima como “compatível”, mas o mundo civilizado chama essa nossa característica de “atraso”.
Porém, não é por falta de informação:
As nossas escolas nos ensinavam que um país com a economia baseada na exportação de matéria-prima e na importação de manufaturados é uma país subdesenvolvido.
Hoje, o nosso modelo econômico tem como base a exportação de commodities de baixo valor agregado e defendemos um   equivocado modelo de desenvolvimento como solução. Esse é o problema!
E, ainda, olhamos o nosso futuro com olhos de cegos, ouvimos as críticas com ouvidos de surdos e guardamos os nossos lucros nos bolsos de mendigos.
Pior, achamos que evoluímos com portos para exportar a matéria-prima que vai enriquecer ainda mais os países ricos e por onde importamos os produtos industrializados com base em nossa força primitiva de trabalho.
Agora, cientes de nosso equivocado modelo de desenvolvimento, podemos assinar o manifesto para a Câmara de Comércio Exterior – CAMEX.
E dizer NÃO à importação de café.
A importação da mesma matéria-prima que produzimos – e vendemos ao preço de um cafezinho –  era o que faltava para oficializar o Estado do Espírito Santo como subdesenvolvido e tornar a nós, os capixabas, ainda mais sem capacidade de entendermos a nós mesmos e sem perspectivas para um melhor amanhã.
Maciel de Aguiar
Direto das barrancas do Cricaré
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