A BELA E MOTIVADORA HISTÓRIA DE HERBERT DANIEL

(Por Larissa Itaboraí e Fabiano Carnevale)
Em palestra ministrada no Rio de Janeiro, o historiador James Green mostrou a história por trás da história de Herbert Daniel, que além de fundador do Partido Verde e da Fundação, foi um revolucionário e defensor da bandeira LGBT no Brasil“O movimento LGBT não precisa de herois, mas necessita de referências”. Com essa frase, o historiador brasilinista, James Green, mostrou durante palestra no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), um dos motivos de ter escrito um livro dedicado à história de Herbert Daniel. Segundo James, Herbert tem papel fundamental na história recente da bandeira LGBT e dos direitos humanos no Brasil. A palestra ocorreu dia 16 de maio e foi aberta ao público.

Lançado em 2015 e ainda sem tradução para o português, o livro ‘Revolucionário e Gay: A Vida Extraordinária de Herbert Daniel’ tem como cerne principal mostrar a importância de Herbert na luta pela bandeira LGBT e pelos direitos humanos, além de peça-chave para entender a criação do Partido Verde no Brasil. De acordo com Fabiano Carnevale, Secretário de Relações Internacionais do Partido Verde, no meio dessa onda conservadora que permeia os ambientes de poder, conhecer a história de Herbert Eustáquio de Carvalho (nome de batismo de Herbert) “se torna um elemento fundamental na compreensão das lutas políticas do fim do século XX e que afloram nessa segunda década do século XXI”.

Gays, lésbicas, bissexuais, travestis e transexuais foram alvo da violência e perseguição do Estado brasileiro durante a ditadura civil-militar (1964-1985). O movimento de resistência LGBT foi sufocado, reprimido e impedido de se desenvolver, como ocorria em outras partes do mundo na época. Herbert Daniel (nome que adotou depois da clandestinidade durante a Ditadura Militar) participou dos sequestros dos embaixadores alemão e suíço pela Vanguarda Popular Revolucionária (VPR). Companheiro de Dilma Rousseff, foi com ela que compartilhou suas dúvidas sobre a tensão entre ser guerrilheiro e a sua sexualidade. É essa tensão entre suas ideias e sua sexualidade de um lado, e os preconceitos da esquerda e da sociedade, que leva Herbert ao que James Green chama de “primeiro exílio”. E essa leitura política da tensão entre as ideias e o pensamento revolucionário de Herbert Daniel é que compõe o fio condutor dessa extraordinária biografia narrada por Green.

Segundo James Green, Herbert é uma das personalidades mais importantes da história recente do Brasil. Foi nos anos de exílio (iniciado em 1974), que Herbert Daniel (assim como Liszt Vieira, Fernando Gabeira, Carlos Minc e Alfredo Sirkis e outros fundadores do Partido Verde no Brasil), passou por uma transformação social e política, influenciado pelos novos movimentos que se fortaleciam na Europa, como o ecologismo, o feminismo e o pacifismo.

Em 1979, Herbert não conseguiu ser enquadrado na Lei da Anistia por ações durante a guerrilha. Enviou uma carta ao jornal “Lampião”, primeiro periódico gay do Brasil e, Aguinaldo Silva (na época editor do jornal) denunciava que a carta de Herbert não havia sido aceita pela Comissão Brasileira de Anistia pelo fato de ser gay.

Foi então no seu retorno ao Brasil, em outubro de 1981, que Herbert Daniel assumiu sua homossexualidade e passou a ser uma das principais vozes do movimento no Brasil. Participou da vitoriosa campanha de Lizst Vieira (PT) para deputado estadual (RJ), que trouxe temas de vanguarda para o cenário político eleitoral, como a ecologia e os direitos homossexuais e das mulheres. Em 1988, numa entrevista histórica para a TV Manchete, Herbert Daniel se assumiu gay e portador do vírus da AIDS. Compartilhou de forma até hoje inédita na televisão brasileira, o grande amor entre ele e Claudio Mesquita, companheiro que esteve ao seu lado até sua morte.

Herbert Daniel foi um dos fundadores do Partido Verde no Brasil, em 1985, e disputou as eleições estaduais do Rio de Janeiro em 1986 (no que já era uma coligação PT-PV, com Gabeira para Governador e Herbert para Estadual, embora o PV ainda não possuísse registro), com a temática ultra-vanguardista que representavam os verdes na época. Apesar do PV ter feito uma das campanhas mais emblemáticas da Nova República, Herbert não foi eleito deputado e Gabeira terminou em terceiro.

Foi fundador da Ong Pela Vidda, primeiro grupo no Brasil, formado por portadores do HIV, familiares e amigos. O grupo se tornou referência na valorização, integração e dignidade do doente de Aids. Herbert Daniel chegou a ser lançado pré-candidato pelo PV à Presidente da República em 1989, mas com a saúde fragilizada, o PV lançou Fernando Gabeira.

Falecido em 1992, conhecer mais a biografia de Herbert Daniel é fundamental. Revolucionário e gay, o extraordinário Herbert Daniel é mais do que um pedaço na história do Partido Verde do Brasil ou só o nome da nossa Fundação: ele é nossa inspiração e admiração. E, mais do que nunca, conhecer sua biografia é o que pode nos diferenciar das outras siglas. O livro de James Green nos leva a um dos capítulos mais bonitos que nós verdes escrevemos no cenário político nacional.

James Green – James Green é historiador especializado em estudos latino-americanos, brasilianista e ativista dos direitos LGBT norte-americano. Morou no Brasil de 1976 a 1982, quando atuou na organização do movimento que articulava a defesa dos direitos homossexuais. É autor de livros como Além do Carnaval: a homossexualidade masculina no Brasil do século XX e Apesar de vocês: a oposição e a ditadura militar brasileira nos EUA. Lançou em 2015 a biografia do ativista gay e guerrilheiro Herbert Daniel, morto em 1992.

James conta que ao tomar contato com a produção do escritor brasileiro Herbert Daniel (1946–1992), que combateu a ditadura, ficou impressionado com a clareza das críticas e a criatividade do texto. Isso o motivou a escrever a biografia de Daniel. Green lembra que Daniel “foi muito pioneiro e um modelo de como assumir a sua sexualidade e de como relacionar a discriminação que as pessoas LGBTs vivem a outras lutas sociais”.

Resgatar a memória da trajetória e do pensamento de Daniel é importante porque, na visão de Green, “infelizmente estamos passando por um período muito ruim, com o crescimento da direita conservadora, religiosa e homofóbica”. Ele avalia que “é um grande desafio para o movimento LGBT o enfrentamento desta situação”, que “exige a unidade do movimento LGBT e a união com outros movimentos que estão contra esta nova ordem social”.

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