A TRAGÉDIA EM PORTUGAL E A DEGRADAÇÃO DAS FLORESTAS

(ARTIGO EXCLUSIVO DA AMBIENTALISTA  LILIA PALMEIRA para o Blogdoguida)

“Seguindo a tendência nacional da substituição da flora indígena por povoamentos silvícolas de espécies exóticas, como o Eucalipto (Eucalyptus globulus), e por pinhal (Pinus pinaster), o Concelho de Pedrógão Grande assistiu nos últimos anos à descaracterização do seu rico e diverso Património Vegetal”. Assim começa a descrição do Patrimônio Natural de Pedrógão Grande no site do município português onde ocorreu o maior desastre natural das últimas décadas, incêndio alegadamente ocasionado por raios.

O grande incêndio florestal principiado na noite de sábado (17/06), na região central de Portugal é a continuação de uma história antiga.

De acordo com depoimentos e comentários de portugueses nas redes sociais, décadas sucessivas de governos e a “mesmíssima placidez perante as vagas que vão queimando Portugal” são os verdadeiros responsáveis pela tragédia atual.

Um comentário me chamou atenção: “Sempre houve trovoadas destas, mas não haviam estes hectares todos de pinheiro e eucalipto… Castanheiros, carvalhos, faias, sobreiros são árvores que “cortam o fogo”, mas todas elas foram substituídas por algo mais lucrativo, o eucalipto que cresce rápido. Antes os matos eram cuidados, havia gado a limpar o mato, havia mais mãos na terra. É certo que havia fogos, mas não eram assim com estas dimensões. ”(via Paula Netto, moradora de Dornes que, no momento em que escrevo isso está com as “malas no carro a ver o fogo a descer uma encosta, pronta a fugir”)

Para os técnicos florestais e para boa parte dos economistas, a nova posição do eucalipto é irrelevante. Já para os ambientalistas o eucalipto é uma ameaça à biodiversidade e um fator de risco agravado para os incêndios de Verão.

O Inventário Florestal Nacional (IFN) reconheceu, já em 2010, que o eucalipto é a espécie que ocupa mais área na floresta portuguesa em detrimento das árvores nativas. Os avisos não são de hoje.  Em 1965, o relatório Princípios Básicos de Luta contra Incêndios na Floresta Particular Portuguesa, já alertava para as monoculturas e desertificação rural que conduziriam ao desastre atual.

Como exemplo maior de monocultura está o eucalipto. De acordo com Manuel Carvalho em 2015 oito em cada dez hectares de floresta plantados sem recurso a fundos públicos tiveram como destino os eucaliptos. “A liberalização das plantações e replantações está a dar fôlego à espécie que já domina a floresta nacional! Disse ele.

A floresta do conglomerado Altri, por exemplo, está localizada em Portugal continental e é predominantemente constituída por eucalipto, uma espécie que ocupa cerca de 80% dos cerca de 84 mil hectares da floresta sob gestão, de acordo com o próprio site da empresa. http://www.altri.pt/pt/sustainability-and-environment/forest-management/our-forest

“Só não se sabia onde o raio ia cair, mas muitos avisaram que onde caísse seria uma desgraça. Ninguém esperava que tomasse estas proporções, mas a ausência de aposta na floresta conduziu a este barril de pólvora. Como já aconteceu antes e irá voltar a acontecer. Será que é desta que tudo muda?” alerta matéria do Público Pt. Na mesma matéria as jornalistas Ana Fernandes, Alexandra Campos e Natália Faria pontuam que “o conhecimento técnico tem sido paulatinamente destruído — ou ignorado — em Portugal. Os serviços florestais são uma pálida imagem do que foram, os guardas florestais foram integrados na GNR (Guarda Nacional Republicana) e os conselhos dos silvicultores são esquecidos assim que o Outono ameniza o clima.”

 

Fontes:

https://www.publico.pt/2017/06/18/sociedade/noticia/o-que-e-que-falhou-no-sabado-tudo-como-falha-ha-decadas-1776101

https://www.publico.pt/2017/06/18/sociedade/noticia/estas-a-ver-no-que-da-terem-acabado-com-os-servicos-florestais-1776086

https://www.publico.pt/2017/02/06/sociedade/noticia/area-de-eucalipto-vai-ficar-congelada-ate-2030-1760747

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