Mapeamento de região metropolitana expõe problemas do Rio

A rotina dos moradores dos municípios mais pobres do Grande Rio segue, com poucas variações, um roteiro previsível. O trabalho é longe de casa, o que implica deslocamentos exaustivos em ônibus ou trens abarrotados, nos quais são gastas cerca de duas horas. Na saída de casa ou na chegada, as pessoas circulam por ruas sem pavimentação, onde os imóveis são servidos por instalações precárias de água e não existe esgoto. É uma situação que persiste há décadas, e não há prazo para que mude. No entanto, a partir de agora, os governantes, sejam eles do estado, sejam dos municípios, não podem alegar falta de parâmetro para atacar e solucionar tais problemas. A Câmara Metropolitana do Rio de Janeiro, órgão do governo do estado dedicado aos assuntos comuns à conurbação formada ao redor da capital, acaba de concluir um detalhado mapa que esquadrinha cada metro quadrado dos 21 municípios que compõem a região metropolitana. A cartografia, inédita, ainda expõe a situação atual de infraestrutura, transporte e ocupação do solo, além de territórios com risco de inundação. Mesmo tendo sido concluída em um momento nada propício a investimentos públicos, a pesquisa, financiada pelo Banco Mundial, é uma ferramenta crucial para nortear o desenvolvimento da área pelos próximos vinte anos; nela são apontados os problemas e o que precisa ser feito. “Esse trabalho é um fio de esperança para o estado. Nem o petróleo nem a Olimpíada foram capazes de redesenhar o nosso futuro. Agora, sem recursos, cabe a reflexão sobre aonde queremos ir”, opina o arquiteto e urbanista Washington Fajardo.

O mapa foi elaborado a partir de um levantamento fotográfico, com mais de 4 000 imagens aéreas, da área que se estende de Itaguaí a Cachoeiras de Macacu, incluindo as cidades da Baixada Fluminense e tendo como limite a Região Serrana. Finalizada a produção de imagens, a equipe técnica começou a diagnosticar os problemas. O primeiro diz respeito à cobertura verde: um terço do território é tomado pela Mata Atlântica, mas só metade dele está sob proteção legal. No entanto, o que mais impressionou os pesquisadores foi a configuração da mancha de ocupação urbana. Cerca de 50% da população da região vive em um raio de apenas 30 quilômetros traçado a partir do Centro do Rio, o que resulta em uma concentração demográfica extremamente complexa de ser gerida. Outra constatação alarmante foi o avanço das cidades nas margens das rodovias. “É preciso conter o crescimento nas bordas e multiplicar áreas centrais. No modelo atual, é inviável estabelecer políticas públicas nesses locais. O território tem de ser ocupado de forma ordenada e planejada. O que vai acontecer com o entorno do Arco Metropolitano é uma preocupação, por exemplo”, explica Vicente Loureiro, diretor da Câmara Metropolitana.

Outro ponto visível pelo estudo é a emergência na expansão do saneamento básico — com exceção da capital e de Niterói, o esgoto tratado na região chega a, no máximo, 10% do total de residências, o que afeta diretamente a qualidade da água da Baía de Guanabara. “As soluções só serão possíveis quando os problemas forem enfrentados em conjunto. O Rio, por exemplo, não pode virar as costas para os outros municípios”, afirma Loureiro. As deficiências do transporte público e das rodovias também entraram no foco das primeiras análises. A partir dos dados demográficos, o traçado de novas estruturas se faz necessário, como a Linha 3 do metrô, para conectar Niterói a Itaboraí, a expansão do transporte aquaviário e a construção de uma avenida para ligar São João de Meriti a Bangu. “Pensar a região como uma metrópole é uma questão emergencial. Não é cabível que o governador decida junto com a construtora e a concessionária o desenho das linhas de metrô ou de outros sistemas de transporte”, opina Sérgio Magalhães, presidente do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB).

Com seus estudos e abrangência, a Câmara Metropolitana tem potencial de mudar a governança e a estratégia de desenvolvimento para a área. Mas, para isso, é preciso que todas as suas esferas de discussão e decisão sejam implementadas (o que ainda não aconteceu). “Nosso modelo político não favorece um desenvolvimento ordenado. Desde que o Rio deixou de ser a capital, nada foi feito objetivamente”, critica Fajardo. Grandes metrópoles globais têm modelos específicos nesse sentido — a gestão da região de Paris, por exemplo, é federal. “Temos uma tarefa muito complexa, e também cabe à sociedade e à iniciativa privada participar”, opina Loureiro. Mapeado o abandono, que venham as soluções.
(Equipe/Veja Rio)

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