UM RETRATO REAL DA NOSSA AGRICULTURA DAS COMMODITIES E DO GLIFOSATO

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Por Soraya Carvalhedo Honorato
UFBA e UESC
(Artigo exclusivo para o blogdoguida.wordpress.com)
Embora, ainda muito tocada com a tragédia que inundou Brumadinho de lama
tóxica, perdas e dor, eu me atenho neste texto a outra atividade econômica,
que se aproxima da mineração, na medida em que tem potencial de espalhar,
silenciosamente, doença, câncer e morte: a agricultura.
O uso indiscriminado e descuidado do glifosato e de outros agrotóxicos
(ou defensivos agrícolas) em si não é o meu foco aqui. Vou me concentrar em
algumas pontuais dificuldades das centenas pelas quais a agricultura brasileira
enfrenta, o governo ignora e o povo desconhece.
Me detenho nos desafios dos pequenos e médios produtores rurais deste enorme
Brasil. É desta realidade que eu conheço um pouquinho!
E eu quero falar, dentre outros aspectos, do total abandono que o agricultor
comum e pequeno da minha região sente quando sua cultura não é assunto
corrente nos programas de pesquisas das universidades, tampouco das empresas
de pesquisas. Definitivamente, não queremos plantar material genético
insuficientemente testados, arriscando os poucos recursos que temos. E
queremos urgentemente o desenvolvimento de equipamentos baratos e
descomplicados que substituam ao máximo a mão-de-obra que se escasseia no
campo.
Eu poderia falar um pouco do limiar tenso que existe entre o agricultor, o
ambientalista, o fiscal ambiental, o cientista! E eu bem poderia falar com muita
propriedade com o olhar de cada um destes. Falaria enquanto doutoranda em
ecologia; enquanto agricultora; enquanto ex-servidora pública, concursada na
condição de fiscal ambiental; na condição de ex-gestora de unidades de
conservação, uma de proteção integral, com experiência em gestão e
planejamento ambiental de áreas protegidas.
Neste espaço que o Fernando Guida me legou, a minha voz é de uma pequena
agricultora!
Independente do tamanho do agricultor, eu sempre digo que, no geral, este
cidadão tem quatro facas bem afiadas no pescoço: i) a queda violenta dos preços,
com especulação na bolsa de valores, caso ele plante commodities; ii) a justiça
injusta dos tribunais de justiça do trabalho, incapazes de distinguir o grande do
médio e do pequeno produtor em uma eventual condenação por
responsabilidade objetiva. O funcionário do agricultor ou a empresa prestadora
de serviços erra, mesmo sabendo que é errado fazer, não importa, a condenação
da culpa é do agricultor. Sempre e sempre!; iii) os bancos com os seus prazos
impraticáveis de pagamento de custeios e financiamentos agrícolas; iv) os
sindicatos dos trabalhadores rurais, que negociam com agricultores como se
estivessem negociando com fábricas, indústrias, cujos lucros são
muito e muitas vezes maiores que os da agricultura.
Por exemplo, reza a lenda, que um médio produtor de borracha natural, que
participa de cooperativa, que mantém mão-de-obra em regime CLT, que paga
financiamento agrícola, que mantém empresa de segurança para guardar seus
empregados e patrimônio (posto que o governo é incapaz de fazer), tem uma
margem de lucro 700% menor que uma indústria fabricante de pneus.
O detalhe é que hoje, o pequeno e médio produtor de borracha natural não tem
margem de lucro porque o valor pífio que o mercado se propõe pagar não cobre
todas as despesas do campo que são muitas.
E quem fica com os passivos ambiental e trabalhista da atividade mais arriscada
que é a exploração da matéria-prima?
Se o agricultor é grande, planta soja, planta milho, planta milheto, planta
algodão, planta cana-de-açúcar, ele tem a faca e o queijo na mão! Ele garante o
seu quinhão, porque tem pesquisas da Embrapa, portanto tecnologias a serviço
da cultura agrícola que ele planta, porque tem a bancada ruralista para satisfazê-
lo, porque as renegociações dos financiamentos agrícolas são ajustadas em favor
dele primeiro. Não, aos agricultores da ponta; não, aos agricultores da linha de
frente; não, aos agricultores que produzem alimento ou commodity, também
plantada na África e nos pobres países asiáticos.
Os pequenos e médios produtores agrícolas, obedecem ao be-a-bá da lei e
sentem o peso dela. E ainda competem com os mesmos produtos agrícolas
importados com o carimbo dos trabalhos escravo e infantil. E não há quem
impeça a entrada destes produtos sujos de crime. Nem mesmo o combativo
Ministério Público!
Nesta infeliz lógica, nesta triste realidade, neste assoalho diminuto e injusto, o
produtor agrícola comum mantém o emprego do homem do campo no regime
CLT; ainda que o agricultor já não tenha margem pra mantê-lo; e ainda que o
empregado seja improdutivo e desonesto ao ponto de apresentar atestado
duvidoso; ainda que o agricultor não tenha tecnologia para produzir mais; ainda
que ele tenha pouca mão-de-obra comprometida; ainda que ele tenha prestações
de custeios e investimentos que nunca acabam! Então, o agricultor se endivida
mais e mais, na esperança que o sol nasça com boas novas!
Sim, é capaz deste agricultor “que mata um leão por dia” receber uma notificação
ou uma multa ambiental! Sim senhor! O agricultor quer renovar a sua licença de
operação para explorar a sua fazenda, mas ele não consegue porque o órgão
ambiental do Estado dele simplesmente não funciona, não raras as vezes! E o
agricultor tem Reserva Legal averbada em escritura pública; respeita as áreas de
preservação permanente; possui responsável técnico emitindo ART em dia;
emitindo ADA e relatórios ambientais ano após ano; tem plano de gestão
ambiental e cumpre seus itens; faz gerenciamento de resíduos sólidos; mantém
voluntariamente certificação ambiental e paga caro pelas auditorias. É de
indignar! Dou prova de tudo que eu tenho dito!
O desafio gigante é descomoditizar, se o agricultor planta e colhe o que é
viável financeiramente agregar valor!
No mais, ele terá que usar muito glifosato, posto que a conta não fecha se ele
contratar trabalhador agrícola para capinar. Isso se ele encontrar que queira
fazer o pesado serviço de capinar, de roçar, de limpar áreas para plantar. Já não
há mão-de-obra disponível que queira fazer o serviço no braço. Os jovens da
zona rural querem outros mundos, não este da agricultura dura, ingrata e que
remunera o salário mínimo com o esforço do corpo, não da mente.
O trabalhador agrícola pode ir embora pra cidade. O agricultor, não. Este fica! Ele
tem dívidas pra pagar. Talvez, morrerá com elas!