O “desespero climático” está a fazer com que muita gente desista de viver

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“É muito doloroso ser humano nesta altura da história”.

Por Mike Pearl; ilustração por Annie Zhao; Traduzido por Sérgio Felizardo

ILUSTRAÇÃO POR ANNIE ZHAO.

Este artigo foi originalmente publicado na Motherboard – Tech by VICE.

No Verão de 2015 – o mais quente já registado no Canadá – o calor começou a perturbar demasiado Meg Ruttan Walker, ex-professora de Kitchener, Ontário. “Os verões têm sido muito stressantes para mim desde que tive o meu filho”, salienta Walker, que agora é activista ambiental. E acrescenta: “É difícil aproveitar uma estação que é um recordatório constante de que o Mundo está cada vez mais quente”.

“Acho que, nessa altura, a minha ansiedade atingiu um pico”, continua Walker. Parecia-lhe que não havia mais para onde ir e, apesar de ter conversado com o seu clínico geral sobre ansiedade, não tinha ainda procurado ajuda para a sua saúde mental. De repente, estava a pensar em auto-flagelar-se. “Mesmo achando que não ia realmente magoar-me, não sabia como viver com o medo do… do apocalipse, acho eu? O meu filho estava em casa comigo e tive que ligar a uma amiga para tomar conta dele, porque não conseguia olhar para ele sem começar a chorar”, recorda Walker que, naquela mesma noite, acabou por se internar numa clínica psiquiátrica.


Vê o nosso doc climático: “Make The World Greta Again”


O caso de Meg é extremo, mas a verdade é que há hoje muitas pessoas a sofrerem do que está a ser apelidado de “desespero climático”, uma sensação de que as alterações climáticas são uma força impossível de deter, que vai extinguir a humanidade e tornar a vida em algo fútil no tempo que resta até o fim chegar. Como David Wallace-Wells aponta no seu best-seller de 2019 The Uninhabitable Earth: “Para a maioria das pessoas que percebe que a crise climática já está a acontecer e tem a intuição de que em breve acontecerá uma metamorfose completa no Mundo, a visão é sombria, geralmente tirada de imagens escatológicas perenes de textos como o Apocalipse da Bíblia, o livro incontornável para a ansiedade ocidental sobre o fim do Mundo”.

“Desespero climático” é uma frase usada pelo menos desde o livro de 2010 de Eric Pooley The Climate War: True Believers, Power Brokers, and the Fight to Save Earth, mas tem vndo a circular mais amplamente nos últimos dois anos. Na Suécia, o termo klimatångest é popular desde pelo menos 2011 (o ano em que um artigo da Wikipédia com esse nome foi criado). Em The Uninhabitable Earth, Wallace-Wells aponta que a filósofa Wendy Lynne Lee chama a esse fenómeno de “econiilismo”, o político e activista canadiano Stuart Parker prefere “niilismo climático”, enquanto outros criaram termos como “futilitarismo humano”.

Seja lá o que lhe chames, esta é uma condição inegável, mesmo que ainda não tenha um critério de diagnóstico formal (um status que pode tardar, mas vai chegar. lembra-te que foram precisas décadas para “burnout” ser declarado oficialmente como um “fenómeno ocupacional” pela Organização Mundial de Saúde, mas aconteceu). É impossível saber quantas pessoas como Walker experimentaram desespero climático como uma crise de saúde mental, mas o desespero está à nossa volta: na tua reacção momentânea mais intensa à última notícia sobre o clima, nos memes e piadas sombrias sobre a extinção humana e mesmo em trabalhos de filosofia e literatura. Agora, existe um grupo de cientistas e escritores que não só acreditam na desgraça iminente, mas parecem recebê-la de braços abertos.

Esse desespero pode ser uma consequência do facto de as alterações climáticas estarem, mais do que nunca, na cabeça das pessoas. Segundo a cientista social e psicóloga Renne Lertzman, autora de Environmental Melancholia de 2015, há cada vez mais gente a perceber que as alterações climáticas são reais, assustadoras e não estão a ser devidamente abordadas. “É uma experiência surreal, porque ainda estamos no mesmo sistema, portanto vês as pessoas a andarem de carro, a comerem muita carne e toda a gente a agir como se isto fosse normal”, sublinha. Para algumas pessoas, esse sentimento é incompatível com o viver normalmente.

Mas, o desespero climático vai muito além de uma preocupação razoável com um Planeta cada vez mais quente, que vai acabar por tornar a vida mais difícil e obrigar a Humanidade a fazer uma escolha difícil. Em vez de nos motivar, o desespero climático pede-nos para desistir. Num estudo de 2009 levado a cabo pelas investigadoras britânicas Saffron O’Neill e Sophie Nicholson-Cole, visualizações de dados relacionados com o clima foram apresentadas a participantes que eram incentivados, com base no medo, a tomar uma acção ou algo mau poderia acontecer.

Muitas vezes esses apelos produziam “negação, apatia, rejeição e associações negativas”. No final, as investigadoras concluíram que “imagens das alterações climáticas podem evocar sentimentos poderosos de questões importantes, mas isso não fez com que os participantes no estudo se sentissem necessariamente capazes de fazer algo sobre isso; na verdade, pode acontecer o contrário”. Por outras outras palavras, se dizes às pessoas “é preciso fazer algo ou vamos todos morrer”, estas tendem a escolher a porta número dois, por mais irracional que esse impulso pareça.

No entanto, especialistas dizem que agora é a hora errada para aceitar o fim do Mundo. Segundo Andrew Dessler, professor de ciências atmosféricas da Texas A&M University, a certeza da extinção humana não é correcta, nem é “um ponto de vista particularmente útil”. Dessler explica-me por e-mail que “ainda temos o controlo (maioritariamente) sobre o nosso destino”. E justifica: “É muito doloroso ser humano neste ponto da história. Mas, precisamos de traduzir a nossa preocupação – o nosso desespero, raiva, os nossos sentimentos – em acção”.

De fora, o desespero climático pode ser visto como ansiedade e depressão, comuns em pacientes que estão obcecados com o clima, mas é difícil negar o efeito único que as alterações climáticas estão a ter na saúde mental. No dia 5 de Maio último, um grupo de psicólogos e psicoterapeutas na Suécia publicou uma carta aberta ao seu governo, apontando o status quo perverso das alterações climáticas – a preocupação não é tanto que o meio ambiente se esteja a desmoronar, mas que nada esteja a ser feito sobre isso.

Especificamente, a carta realça que crianças estão conscientes de que os adultos lhes estão a deixar um mundo de merda e essa é uma coisa muito horrível para saber quando se é criança. “Uma crise ecológica continuada, sem um foco de solução por parte do mundo adulto e de quem toma as decisões, cria um grande risco de um aumento de jovens afectados por ansiedade e depressão”, salienta a carta.

Greta Thunberg, a activista do clima sueca de 16 anos que liderou os recentes protestos que se espalharam por escolas de todo o Mundo, disse na sua palestra TED Talk em 2018 que saber mais sobre as alterações climáticas foi um inferno para a sua jovem psique. “Com 11 anos fiquei doente. Caí em depressão. Parei de falar e parei de comer. Em dois meses, perdi quase 10 quilos”, revelou. Mais tarde, descobriu que tinha Asperge, TOC e era uma muda selectiva. Depois, saiu do seu desespero e encontrou uma voz quando decidiu protestar – recusando-se a ir à escola até que o Mundo demonstrasse que estava a tratar dos seus problemas.

Ler factos sobre as alterações climáticas pode, simplesmente, produzir reacções não muito diferentes àquelas que afectaram Thunberg. The Uninhabitable Earth chama às alterações climáticas de “o fim do normal”, explicando que “já saímos do estado das condições ambientais que permitiram que o animal humano evoluísse em primeiro lugar, numa aposta insegura e não planeada sobre o que esse animal pode aguentar”. O relatório do ano passado da ONU sobre o provável fracasso da humanidade em impedir o aquecimento antes do limite de 1,5 graus tinha uma mensagem similar, assim como o relatório de Maio sobre como um milhão de espécies estão a caminhar para a extinção devido à degradação ambiental causada pelos humanos, supondo que não mudemos o nosso curso e paremos de gerar gases-estufa (além de outros tipos de degradação do meio ambiente). Também em Maio, um think tank australiana chamou às alterações climáticas de “ameaça de curto a médio prazo para a civilização humana”.

Greta Thunberg sitting on the ground next to a protest sign

GRETA THUNBERG, A ACTIVISTA SUECA QUE FALOU SOBRE A SUA LUTA COM A DEPRESSÃO. MICHAEL CAMPANELLA/GETTY IMAGES

Estes sinais de alerta ajudam sem dúvida a consciencializar, mas para algumas pessoas essa consciencialização pode acabar em desespero. Maisy Rohrer, uma investigadora de 22 anos na área do desenvolvimento da Universidade de Nova Iorque, sofre há anos para lidar com as alterações climáticas. “Acho que o desespero começou quando tinha 18 anos e comecei a aprender mais sobre o quanto a Terra está a mudar. Tinha ataques de pânico com as calotas polares a derreterem, os ursos polares a morrerem à fome e ligava à minha mãe a dizer que a vida era inútil”, recorda. Na época, ela acreditava que a raça humana “deveria acabar”.

“Tinha pensamentos suicidas e uma grande parte da minha justificação para sentir que estaria melhor morta era que os humanos estavam a prejudicar muito a Terra e eu, como uma pessoa só, não podia ter um impacto positivo suficiente, portanto era melhor não estar aqui para causar mais danos”, realça Rohrer.

Mesmo quem não tem pensamentos suicidas pode ser afectado de maneiras profundas pelo desespero climático. Brooke Morrison é uma radialista de 26 anos da Carolina do Norte que conversa entusiasmadamente sobre música pop quando está no ar. Fora do ar, o seu mundo não é assim tão brilhante. “Sinto que já estou de luto pela minha vida e pelo meu futuro”, afirma. Mesmo os seus planos de vida – quer mudar-se para Los Angeles – são coloridos pelo seu pessimismo. “Acredito 100% que a Costa Oeste estará debaixo de água em breve e gostaria de lá viver enquanto ainda há tempo”, revela.

Há vários “níveis”, como ela lhes chama, em que sofre com os horrores ecológicos que se avizinham: “Sentir como se já tivesse perdido. Sentir que tudo está fora de controlo. Sentir que não posso começar uma família, portanto tento convencer-me a não querer uma, ou mesmo a casar-me. Só desistir. Ainda assim, tento manter um desejo de continuar e seguir em frente. Tentar agarrar-me a alguma forma de esperança”. Mas, quando diz “esperança”, ela não quer dizer esperança para o Planeta. Morrison diz-me muito claramente que não acredita no valor das tentativas da humanidade de mitigar as alterações climáticas: “Acho que é demasiado tarde”.


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Estes sentimentos podem ser poderosos, mas não são baseados em ciência pura. Michael Mann, o climatologista da Penn State que geralmente recebe o crédito por ajudar a chamar atenção do público para as tendências históricas que são centrais para o nosso entendimento das alterações climáticas, chama a esta perspectiva de “catastrofismo” e quer deixar claro que as evidências não apoiam tal situação. “Infelizmente, há alguma má ciência por detrás de muito desse ‘catastrofismo’”, garante. E acrescenta: “Não há necessidade de exagerar ou distorcer o que a ciência tem a dizer”.

E aqui vai o que a ciência tem a dizer: modelos que usam o status quo – ou seja, “não mudar nada” como base – mostram que estamos a caminhar para um penhasco em termos da habitabilidade planetária. Mas, esses modelos estão, provavelmente, a exagerar a falta de acção da humanidade. Países (pequenosinteiros têm planos sérios para rapidamente diminuir a sua pegada de carbono e países maiores estão a fazer sérios progressos, só que não suficientemente rápido. Segundo essas tendências, é possível imaginar que a humanidade vai atingir uma estabilidade climática relativa, mesmo enquanto os efeitos das nossas emissões de gases-estufa – alguns deles terríveis – continuam, talvez por milhares de anos. Isso seria melhor que nunca descarbonizar e nunca mais atingir nenhuma aparência de estabilidade.

Dessler coloca a coisa da seguinte maneira: “Acho que está claro que as emissões vão chegar a zero e estabilizar o clima em algum ponto deste século. Mas, demorar 50 anos para o fazer vai valer-nos um mundo diferente do que se o fizermos em 20 anos. Depende de nós decidir em qual desses mundos queremos viver”.

A humanidade precisa claramente de tratar as alterações climáticas como um problema urgente e, como aponta Wallace Wells em Uninhabitable Earth, é importante discutir possibilidades extremamente pessimistas, desde que elas sejam de facto possíveis, porque “quando descartamos os worst case scenarios, isso distorce o nosso sentido de resultados prováveis, que então consideramos como cenários extremos para os quais não precisamos de planear com tanto cuidado”. Mas, o ímpeto intelectual do desespero climático leva isso mais além, insistindo que apenas os piores cenários possíveis são merecedores de consideração séria.

Esta é uma visão que desabrochou em lugares como o subreddit /r/collapse, que tem uma curadoria de notícias para demonstrar que o Mundo está a chegar ao seu fim. Os autores Paul Kingsnorth e Dougald Hine colocam o termo “soluções” em citações assustadoras do seu Dark Mountain Manifesto de 2014, que, mesmo sendo praticamente uma mobilização para a guerra, também abraça a ideia da sociedade “a desfazer-se”. E há cientistas que se vendem como profetas do fim do Mundo, só para que suas profecias sejam refutadas. Entre eles está o notório exagerador do derretimento das calotas polares Peter Wadhams e o ecologista e fabulista do “fim está próximo” Guy McPherson.

Mas, nada se compara ao texto viral intensamente sombrio Deep Adaptation: A Map for Navigating Climate Tragedy, do professor da University of Cumbria Jem Bendell, um artigo de 2018 que Bendell auto-publicou depois de um jornal académico se recusar a fazê-lo. O artigo argumenta que o colapso total da sociedade está a caminho e descreve a vida no meio desse colapso com frases fortes como “Terás medo de seres violentamente assassinado antes de morreres de fome”. O artigo foi tão poderoso que fez com que pessoas procurassem terapia e até largassem os seus empregos para viverem mais perto da Natureza.

No entanto, Deep Adaptation tem vindo a ser criticado como um trabalho manhoso e exagerado pelos padrões académicos. Mostrei Deep Adaptation ao antropólogo Joseph Tainter, o maior estudioso que encontrei sobre o tema colapso da sociedade e ele disse-me o seguinte: “Achei o artigo de Bendell simplista e superficial. Como também é alarmista, vou chamá-lo de irresponsável. Depois de revisar tendências ambientais relacionadas com as alterações climáticas, ele não conseguiu demonstrar como é que isso pode levar à ‘fome, destruição, migração, doenças e guerra’. As alterações climáticas podem levar a alguma ou a todas essas coisas, mas num trabalho deste género o autor tem de demonstrar como” (em resposta a Tainter, Bendell afirma que o seu artigo não explicava o mecanismo do colapso, porque “já estava demasiado longo, tendo em conta o resumo da ciência climática e dos processos de negação” e acrescenta: “O artigo fala do meu campo profissional de gestão de sustentabilidade e não com de outros campos, como aquele que estuda a história dos colapsos da sociedade”).

Qualquer um que acompanhe as questões ligadas às alterações climáticas sabe quão devastadoras serão as suas consequências. Mas, há uma preocupação entre académicos e activistas de que perspectivas como a de Bendell atrapalhem mais do que ajudem. Mann, o climatologista, acha que mesmo Wallace-Wells vai demasiado longe. Em resposta ao artigo da revista New York de 2017 em que o livro de Wallace-Wells foi baseado, Mann escreveu: “Medo não motiva e apelar a ele é contraprodutivo, já que tende a distanciar as pessoas do problema, levando-as a não se envolverem, a duvidarem ou até a descartarem a questão”.

Indo um passo mais além, o escritor e activista do clima britânico George Monbiot vê o sucumbir ao desespero como uma falha moral. “Ao levantarmos as mãos sobre as calamidades que podem um dia afectar-nos, disfarçamo-las e distanciamo-nos delas, convertendo as escolhas concretas em pavor indecifrável”, escreveu Monbiot em Abril. E acrescentou: “Queremos livrar-nos da agência moral, dizendo que já é demasiado tarde para agir, mas ao fazê-lo, condenamos outras pessoas à destituição ou à morte”.

Se desespero gera inação, isso é obviamente um problema. Mas, outros acham que um certo pavor pode ser útil. Num ensaio de quatro sociólogos (Kasia Paprocki, Daniel Aldana Cohen, Rebecca Elliott e Liz Koslov) publicado em Maio, os autores defendem algo chamado “desconforto útil”. Eles escrevem que não puderam deixar de reparar que os seus colegas das ciências físicas estão a ter dificuldade para lidar com “as evidências devastadoras de um apocalipse” e que “estão a entrar em desespero por causa do que sabem e com a forma como estão a ser ignorados, descartados ou até mesmo ameaçados”. No entanto, afirmam: “Acreditamos que os nossos desconfortos são produtivos. Permitem-nos rejeitar o catastrofismo e definir possibilidade para um futuro melhor”.

De facto, enquanto o desespero cresce, a visão dos norte-americanos sobre as alterações climáticas parece ter mudado. Em Fevereiro, Yale publicou uma sondagem de atitudes sobre alterações climáticas e apontou um aumento de oito por cento em apenas um ano de pessoas que se dizem “alarmadas” com as alterações climáticas. Esta sondagem foi conduzida logo depois do lançamento do relatório especial da ONU de 2018 (na mesma época que o artigo da New York de Wallace-Wells também estava a circular). A investigação de Yale não liga esses pontos e correlação não significa causa, mas é tentador pensar que alguma coisa abalou a complacência de muitas pessoas – pelo menos momentaneamente. Políticos também estão cada vez mais a falar sobre as alterações climáticas, com a esquerda a alinhar atrás do enquadramento do Green New Deal e até republicanos dispostos a considerar políticas climáticas.

A protester dressed as Death on a horse.

UM MANIFESTANTE DA GREENPEACE NUM CONGRESSO SOBRE ALTERAÇÕES CLIMÁTICAS DA ONU EM 2009, VESTIDO DE CAVALEIRO DO APOCALIPSE. FOTO POR PETER MACDIARMID/GETTY

Isto não é, provavelmente, um grande conforto para quem já está a sofrer com as questões de saúde mental que o diálogo que rodeia as alterações climáticas pode piorar. “Eu sentia que cada refeição e cada bebida que consumia com uma palhinha seria mais prejudicial do que provavelmente era e isso levou-me a parar de comer o suficiente e a tomar outras decisões que prejudicavam a minha saúde no geral”, conta Rohrer. E acrescenta: “E isso, por sua vez, alimentou a minha depressão com a falta de nutrição e sono, o que aumentou a minha paranoia e pânico com o clima. É um ciclo vicioso”.

Katerina Georgiou, uma terapeuta de Londres, diz-me por e-mail que esse desespero climático está, “geralmente, ligado a clientes que já apresentam um diagnóstico de ansiedade (generalizada, de saúde ou TOC)”. Georgiou explica que esses pacientes estão a sofrer “muito”, mas que pela avaliação dela, isso “tem menos a ver com o tema em si e mais com um padrão de como a ansiedade funciona. Alterações climáticas é, por acaso, onde a fixação está, mas é a fixação que é o sintoma”. Quando lhe perguntei que estratégias sugeria para lidar com a situação, a resposta de Georgiou foi simples: “Reduzir o tempo de visualização de notícias e redes sociais”.

Todavia, muitas pessoas com quem falei que sofrem de desespero climático não queriam que a sua fixação com o futuro do Planeta fosse tratada como um sintoma. Para esses pacientes, um primeiro passo importante é, simplesmente, encontrar um terapeuta que reconheça que as alterações climáticas não são uma manifestação de problema mental.

Rohrer ficou aliviada quando eventualmente encontrou alguém assim. “Ela ouviu-me, deixou-me falar durante duas horas na nossa primeira consulta e, basicamente, disse-me que eu precisava de colocar coisas como o meu desespero específico em relação ao clima em segundo plano e questionar a minha tendência para catastrofizar tudo… No começo, fiquei muito irritada”, sublinha Rohrer. E conclui: “Mas, quando ela explicou o porquê e fizemos um plano que incluía voltar a isso, senti-me compreendida, o que ajudou”.

Segundo Walker, a activista que teve a crise em 2015, o terapeuta perfeito reconheceria que sim, a saúde mental é o problema em primeiro plano, mas também é importante reconhecer a “enormidade da crise climática”. Ela também diz que precisaria “de alguém com quem pudesse trabalhar a longo prazo”. E justifica: “Ainda tenho que viver num Mundo onde a crise climática não vai desaparecer. Ficar presa no desespero não é uma opção para mim como mãe ou activista”.

Lertzman acha que os terapeutas têm de mudar. “Estamos a falar de um facto novo e sem precedentes e precisamos de novas práticas para abordar esse problema. Mas, isso não significa começar do zero”, realça. De uma forma ou outra, precisamos de ter muitas conversas sem barreiras sobre como nos sentimos em relação às alterações climática, onde nenhuma emoção é errada. “Quando há uma crise nas nossas vidas – como perder o emprego, perder alguém, um divórcio, revoltas, ou agora cada vez mais pessoas a serem deslocadas por causa de desastres naturais, enchentes e incêndios – precisamos de ser capazes de processar a nossa experiência, geralmente falando com outras pessoas”, alerta Lertzman. E conclui: “Depois, podemos ser mais capazes de realmente seguir em frente. Este contexto não é diferente”.

Para os terapeutas, Lertzman sugere uma prática chamada Entrevista Motivacional (EM), criada pelos psicólogos William Miller e Stephen Rollnick. A Entrevista Motivacional visa orientar pessoas para mudanças comportamentais difíceis mas necessárias, através de perguntas. “É preciso uma conversa de 10 a 15 minutos usando a EM versus uma interação de cinco minutos onde simplesmente dizes ‘Tens de comer isto’ ou ‘Tens de fazer mais exercício’”, explica Lertzman. Ela acrescenta que “respeitar a nossa experiência como valiosa e cheia de sabedoria” é a parte mais importante da terapia derivada da EM para desespero climático e que técnicas específicas retiradas da EM incluem “conversar sentado num círculo, criar espaços seguros para ser honesto e vulnerável e partilhar histórias”.

Mesmo que terapias como esta possam transformar o desespero das pessoas em acção útil, parece que este é um processo lento, num momento em que, como Bill Nye apontou recentemente, o Mundo está a arder. Ainda assim, Lertzman diz que, às vezes, temos que ir devagar com as coisas para podermos seguir em frente: “Há uma frase em EM: ‘Não temos tempo para não darmos um tempo’”.

No entanto, se aprender a motivar as pessoas parece algo demorado, há outra forma, muito mais antigo e simples, de processar o desespero. Entregar-se a ele por um momento. Chorar. Permitir-se reconhecer o quão mau é tudo isto e como muito disto nunca, nunca vai melhorar. Resumindo: passar pelo luto. Walker afirma que usa o luto como uma forma de processar as suas emoções sobre o clima. “Temos que reconhecer que mudámos o nosso Planeta. Tornámo-lo mais perigoso e mais quente”, justifica.

Lertzman concorda com esta abordagem. “É saudável passar pelo luto. Precisamos realmente de parar. Precisamos honrar e envolvermo-nos com o que estamos a sentir. Não é a mesma coisa que chafurdar no desespero. Não é a mesma coisa que entrar num buraco e nunca mais sair”, realça. E conclui: “Luto é um processo. Um reconhecimento. Mas, ainda podes seguir em frente”.