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A ECONOMIA AZUL

*Roberto Klabin

A “economia azul” é um conceito incipiente e ainda não claramente definido, mas oferece uma visão do mar e costa como uma nova fonte de crescimento econômico, criação de emprego e de investimento.

A curto prazo, isso pode simplesmente significar o início de uma intensificada fase da atividade econômica convencional. No entanto, uma interpretação mais expansiva e inovadora enxerga na “economia azul” uma oportunidade onde se busca o equilíbrio entre um investimento responsável em um oceano sustentável. Um cenário de win-win , no qual o setor privado é um catalisador para o desenvolvimento econômico e a proteção ambiental.

Litorais e oceanos estão entre os ecossistemas mais frágeis, mas também servem como ativos naturais para estimular o crescimento e construir economias. Administrar com sucesso econômico os recursos vivos requer um arcabouço robusto para proteger o bem público e que inclua o reconhecimento da importância do investimento sustentável do setor privado.

Em busca de compatibilizar as atividades, os governos estão estabelecendo práticas de gestão costeira que levem em conta os pontos de vista do setor privado, assegurando práticas sustentáveis integradas às necessidades de conservação.

Infelizmente, não faltam evidências de que o Brasil segue na contramão. Uma prova foi a rejeição, na Comissão de Agricultura da Câmara dos Deputados, do PL 6.969/2013, do deputado Sarney Filho (PV-MA), que institui a Política Nacional para a Conservação e o Uso Sustentável do Bioma Marinho Brasileiro (PNCMar), em tramitação desde 2013.

Conhecida como “Lei do Mar”, seu texto busca integrar diversos setores (governo, sociedade civil e cientistas) na difícil tarefa de propor mecanismos que possam promover o uso e conservação da biodiversidade.

Mais de cem especialistas contribuíram para a construção do texto, o que garantiu que o documento não se baseasse apenas em princípios de conservação, mas que trouxesse também ferramentas inovadoras, como o planejamento espacial marinho, que considera as aptidões naturais das regiões e busca compatibilizar os diversos usos, inclusive econômico, do mar.

O texto traz instrumentos que têm sido testados em diversos países. No Brasil, não houve sequer espaço para o debate. Embora houvesse um requerimento de audiência pública do deputado Evair de Melo (PV-ES) para que o PL fosse discutido antes da votação do relatório, o presidente da Comissão, deputado Irajá Abreu (PSD-TO), vinculado à bancada ruralista, decidiu não incluir o requerimento na pauta.

Está mais do que na hora de aqueles que insistem em antagonizar ambientalismo e desenvolvimento encontrarem uma forma de conciliar seus interesses e impulsionar um Brasil de frente para o mar. Afinal, para promover uma efetiva governança costeira e marinha, é necessário romper o paradigma de que a preservação da natureza impede o crescimento econômico.

Roberto Klabin é vice-presidente para o mar da Fundação SOS Mata Atlântica.

http://bancadaverde.org.br/noticias/a-economia-azul/

NOVOS ARES E NOVAS ÁGUAS

Acabo de assumir a função de Superintendente, na SUPBAP-Superintendência Regional da Bacia do Baixo Paraíba, do INEA-Instituto Estadual do Ambiente do Estado do Rio de Janeiro.

Durante anos trabalhei como secretário municipal ou em  cargos equivalentes. Esta é  uma tarefa um pouco mais complexa.

A SUPBAP atende a 22 municípios do norte e do noroeste do Estado, numa área equivalente a 1/3 do RJ, com quase 1 milhão de moradores.
A sede é em Campos dos Goytacazes.
O fio condutor de toda a nossa atuação é o Paraíba do Sul, tão maltratado ao longo de décadas, por todos nós, direta ou indiretamente, por ação ou omissão, como normalmente são os rios brasileiros, infelizmente.

Ao mesmo tempo que se trata de uma enorme responsabilidade e um desafio diferenciado, é mais uma oportunidade que a vida me dá para trabalhar e animar cada vez mais gente a trabalhar pelas questões socioambientais.

Difícil encontrar tarefas tão essenciais, neste início de Século XXI, como as ligadas à Sustentabilidade e à Resiliência.

Afinal, multiplicam-se as épocas de  cheias e secas e aumenta a intensidade dos eventos climáticos, trazendo transtornos para toda a Sociedade, principalmente os menos favorecidos, que moram nas piores condições, recebem os piores serviços públicos, convivem com menos infraestrutura, com mais violência, enfim, já sofrem mais e a cada ano enfrentam dificuldades maiores.

É para a preservação e melhoria dos ambientes e para estes nosso olhar principal!

Quando estivermos licenciando um empreendimento, aplaudiremos a iniciativa do empreendedor e estaremos mais felizes ainda por que ele estará gerando empregos e ajudando a girar a economia regional, causando melhorias sociais.

Quando tivermos notícia de que um rio está subindo muito, nossa primeira preocupação será com os que, por necessidade, inadvertida e erradamente, residem nas áreas mais arriscadas.

Se conseguirmos, todos nós, co-laborar na disseminação dos conceitos do Desenvolvimento Sustentável, dia após dia, e se nos dedicarmos à  implantação dos melhores exemplos de Resiliência, a pressão vai diminuir e as conseqüências de tragédias, por exemplo, serão minimizadas.

Para esta tarefa, contamos com uma equipe dedicada e competente, formada e liderada há anos por René Justen, a quem tenho a honra de substituir, e que, para nossa sorte, seguirá nos assessorando na SUPBAP.

Com muita honra, também, passo a fazer parte da grande equipe do Governador Luiz Fernando Pezão, na área ambiental liderada pelo  Secretário Deputado André Corrêa.

Vamos evoluir a partir das parcerias, que já começamos a buscar, e das críticas construtivas, que já começam a chegar e agradecemos.

Estamos à disposição de todos.

Luiz Fernando Felippe Guida

Você concorda?

Royalties e República
ARTIGO DE KLEBER GALVEAS

Meu primeiro passaporte (1966) parecia uma caderneta de fiados do armazém. Na capa dura verde, as armas da república e a procedência: Estados Unidos do Brasil.
O segundo passaporte veio corrigido: Republica Federativa do Brasil.
Em nosso país os Estados sempre estiveram juntos; não fomos unidos, mas repartidos, nascemos gêmeos ou de uma ninhada republicana. Isto ajudou a manter a nossa integridade territorial e a prevalecer o sentimento de fraternidade.
O federalismo se justifica por harmonizar tendências diversas inerentes às diferentes regiões do país, promovendo desenvolvimento equilibrado, igualdade social e garantindo o ir e vir de todos os brasileiros. Estados como São Paulo, Rio de Janeiro e Espírito Santo remetem para os cofres da União quantias que chegam a ser 10 vezes maiores que o montante do investimento federal em seus territórios. Enquanto quase todos os outros estados recebem muito mais do que contribuem. O caso do ES é radical. Saem daqui para o Tesouro Nacional quase R$ 10 bilhões, e recebemos menos de R$ 1 bilhão em investimentos.
A navegação foi o principal meio de transporte do sec. XVI ao sec. XX, devido à nossa localização costeira, sempre recebemos muitos imigrantes. Estatísticas mostram que em São Mateus (1875) residia pelo menos um cidadão de cada um dos Estados brasileiros. No último censo fomos campeões no quesito imigração. Hoje, são “novos capixabas” residentes aqui, mais de um milhão de cidadãos nascidos em outros estados. Embora nossa estrutura seja precária, a convivência é harmoniosa.
Na segunda metade do século passado, com a quebra do café no Brasil e a “vassoura de bruxa” destruindo o cacau no sul da Bahia, a industrialização do ES foi acelerada para criar empregos atendendo a uma grande massa de desempregados que chegou às nossas cidades.
Crescemos desordenadamente. Inchamos. Adoecemos. Submetemos nosso ar, solo e água ao interesse nacional: assim, construíram as megaempresas exportadoras, que geram IPI (imposto federal). O grande e rápido fluxo de imigrantes trouxe problemas que não conhecíamos, e os que já existiam se multiplicaram em número e grau. Somos campeões em violência e derrotados em educação
Com a sangria de recursos feita pelo Governo Federal, não conseguimos arrumar a casa para receber bem aqueles que chegam. Não podemos atender às demandas crescentes nas áreas de: segurança, saúde, educação, habitação, transporte, saneamento… O que prejudica a todos.
Rousseau propôs a antítese entre o cidadão e o burguês: burguês não é o nobre nem o rico, é o egoísta que se ocupa dos próprios interesses para atender a sua vontade particular; enquanto o cidadão procede observando a vontade geral.
Deputado federal é cidadão da República. Deve pensar e agir a favor do país como um todo. Representando seu estado, contribui para formar o pensamento e juízo nacional, de acordo com a tradição republicana.
Acredito que Deputados e Senadores refletindo sobre a ética republicana de integração nacional, e sendo o país governado por uma presidenta com forte histórico socialista, há de prevalecer a atitude cidadã sobre o espírito egoísta deste precedente burguês extemporâneo, que pretende subtrair direito adquirido, tumultuando a ordem e o progresso nacional.
Os royalties do petróleo são o capital necessário para minimizar os problemas sociais multiplicados por mantermos ampla cooperação republicana, braços estendidos para dar e coração aberto para receber nossos irmãos.
Kleber Galvêas, pintor. Tel. (27) 3244 7115 http://www.galveas.com 10/2011

Nós e o Planeta Terra

Por Vilmar S. D. Berna

O que nos diferencia dos outros seres da natureza não é a inteligência ou a capacidade de ter emoções, de sentir prazer, dor, medo, de nos comunicar ou criar ferramentas, pois isso várias espécies também fazem em diferentes graus de eficiência. O que nos torna únicos é a consciência de nossa individualidade e, entre as conseqüências disso, está o sentimento de separação do mundo, dos outros, da natureza, pois se somos nós não podemos ser o outro.

Ter consciência nos fez também ter subjetividade, um mundo interior, onde construímos e reconstruímos nossa visão de mundo, do outro, de nós próprios. Assim, embora a realidade seja igual para todos, a maneira de perceber, de encarar e interpretar a realidade muda de pessoa para pessoa.

Isso nos obrigou a estabelecer parâmetros do que é aceitável ou não pela sociedade, pois apesar de separados dos outros e das coisas, enquanto seres sociais estamos ligados uns aos outros e tão dependentes quanto todos da natureza. E natureza, aqui, não significa uma visão idealizada de um ser com propósito e intencionalidade, mas o resultado de milhares de anos de evolução sob determinadas condições de clima e calor, distanciamento do sol, inclinação do eixo da Terra, etc. Revela-se então uma outra característica humana que é a tendência de encontrar significado para as questões que não consegue compreender, como se fôssemos incapazes de viver num mundo que não faca sentido. Os gregos antigos, por exemplo, deram à natureza o status de deusa, à qual atribuíram o nome Gaia.

A consciência também nos tornou livres para escolher o que achamos ser melhor para nós, para o mundo, e o livre arbítrio trouxe consigo culpas e responsabilidades, angústias existenciais sobre qual o melhor caminho a tomar. Ao nos vermos livres da natureza, não mais tendo de obedecer aos instintos e compreendendo cientificamente os seus fenômenos, criamos a ilusão de sermos superiores às demais espécies e à própria natureza. Na tarefa de nos tornar humanos, tivemos e ainda temos de enfrentar a natureza, que age e influencia em nossas escolhas através dos instintos – tão ativos em nós quanto em todas as demais espécies, determinando quando temos de lutar ou fugir, comer e parar de comer, por exemplo, e ainda assim, podemos escolher nos manter em situação de estresse sem tentar fugir e comer sem fome. Este enfrentamento resultou no afastamento maior ainda da natureza. Seguir aos instintos passou a ser um atributo dos animais, algo pouco refinado, embrutecido, motivo de vergonha para os humanos.

Criamos a ilusão de sermos os donos da natureza e dividimos o planeta em territórios, e loteamos cada espaço útil, explorando sem culpas, a ponto de já termos passado do ponto de regeneração natural de diversos ecossistemas. As demais espécies foram destituídas de seus direitos, condicionadas à sua utilidade para nós. Se não for útil, então não tem razão de existir.

Em nossa idealização do mundo, nos demos o papel transcendental atribuído aos deuses, pois se somos superiores à natureza, tínhamos de encontrar um significado para nós fora da natureza.

Quando confrontados com as evidências de nossos atos, alguns de nós preferem buscar desculpas para continuar agindo da mesma forma. Para alguns, a idéia de que a natureza possa sofrer um colapso parece um exagero, pois nada do que façamos irá destruir a natureza, embora possamos nos destruir facilmente. Para outros, a Ciência irá nos salvar descobrindo coisas, inventando novas tecnologias que serão capazes de reciclar nossos restos e descobrir novas fontes de recursos. Outros acham inútil lutar, pois o fim está próximo, conforme revelado em algum texto sagrado e, naturalmente, apenas os que acreditarem nisso serão salvos.

Nossa separação da natureza não aconteceu apenas do ponto de vista psicológico, ético, moral ou espiritual, mas também do ponto de vista físico. Reconstruímos o meio ambiente para adaptá-lo às nossas necessidades onde antes existiam ecossistemas. Construímos cidades às vezes confortáveis, bonitas, às vezes não, de concreto, aço e asfalto e com muita rapidez esquecemos que apesar de muito importantes não são as cidades que produzem a água, o oxigênio, a biodiversidade da qual dependemos para produzir alimentos, medicamentos e obter recursos.

O meio ambiente deixou de ser tudo o que existe, para ser o que existe em torno de nos, como se fosse uma espécie de armazém de recursos inesgotáveis para atender às nossas necessidades. Necessidades que deixaram de ser apenas físicas, como comer, morar, vestir, mas também espirituais, como a de demonstrar afeto através da troca de presentes materiais, de obter reconhecimento social e se sentir pertencendo a uma sociedade através da exibição de objetos de consumo. O resultado foi uma sociedade que não só superexplora a natureza, mas que também superexplora seus próprios semelhantes, pois para que uns possam acumular demais outros precisam acumular de menos.

E por que tudo isso? Enquanto as demais espécies submetem-se aos seus destinos, nos angustiamos na busca de respostas, e quando estas não existem, criamos nós próprios utopias e visões de mundo que dê sentido a este mundo reinventado. Qual é o propósito de nossa espécie? Para que estamos aqui? De onde viemos? Para onde vamos? Por que sofremos com terremotos, vulcões, tsunamis, secas, enchentes, furacões, fome, AIDS, epidemias, etc.? Cometemos algum pecado pelo qual estamos sendo punidos agora? Teremos tempo de evitar um colapso ambiental global? Continuaremos existindo enquanto espécie ou já estamos em declínio rumo à extinção? Alguns se satisfazem com a idéia de deuses e diabos voluntariosos nos manipulando, outros se amparam na idéia de que somos filhos e filhas de seres de outros planetas que nos visitaram no passado e que alguns acreditam que ainda estão entre nós. Outros acreditam que surgimos do caos e do acaso, não importa, ninguém saberá a verdade final mesmo e, neste particular, qualquer idéia serve, desde que tenha significado e nos permita viver em paz conosco mesmo e com os outros, que nos anime a querer serem pessoas melhores e lutar para termos um mundo melhor.

O fato concreto é que nenhum de nós escapará vivo do Planeta que, ao contrário de nos pertencer, nós é que pertencemos a ele e o compartilhamos com todas as outras espécies. Ou nos reinventamos, imaginando outro jeito de estar no Planeta, ou corremos risco de desaparecer antes do tempo. Uma coisa é certa, o Planeta começou sem nós, e acabará sem nós. A questão que importa não é quando acontecerá o fim, mas o que posso fazer, aqui e agora, enquanto tenho vida e saúde para abreviar este fim e aproveitar este presente que todos os dias o Planeta nos proporciona, o de viver. E a vida é bem curta.

* Vilmar Sidnei Demamam Berna é escritor e jornalista, fundou a REBIA – Rede Brasileira de Informação Ambiental (www.rebia.org.br ) e edita deste janeiro de 1996 a Revista do Meio Ambiente (que substituiu o Jornal do Meio Ambiente) e o Portal do Meio Ambiente ( http://www.portaldomeioambiente.org.br ). Em 1999, recebeu no Japão o Prêmio Global 500 da ONU Para o Meio Ambiente e, em 2003, o Prêmio Verde das Américas – http://www.escritorvilmarberna.com.br

VOCÊ CONCORDA COM AS IDÉIAS ABAIXO?

Cidade não pode ter guetos, diz arquiteto do Centro Pompidou

MARIO CESAR CARVALHO
DE SÃO PAULO

Se tivesse feito uma única obra, o Centro Georges Pompidou, em Paris, o arquiteto Richard Rogers já teria entrado para a história. O Beaubourg quebrou a assepsia que dominava os prédios dos anos 70 e antecipou o conceito de museus para grandes massas.

Mas Rogers fez muito mais: criou o mais contemporâneo dos aeroportos (o terminal cinco de Heathrow, em Londres) e arranha-céus antológicos, como as sedes da Lloyds, em Londres, e da TV japonesa, em Tóquio.

Aos 81 anos, deve fazer os seus primeiros trabalhos no Brasil. Esteve aqui por duas semanas para discutir projetos no Rio (ligados às Olimpíadas de 2016) e em São Paulo (com a prefeitura).

À Folha, o esquerdista que tem o título de barão defende que as cidades não podem virar guetos de ricos ou de pobres. “Um área só para ricos contraria a ideia de cidade.”

*

Folha – Os arquitetos repetem que São Paulo e Rio são um desastre. O trânsito é horrível, não há áreas verdes e há favelas por todos os lados. O sr. concorda?
Richard Rogers – Não. O Rio é a cidade mais bonita que já vi. A paisagem é maravilhosa. Há praias por todos os cantos, o calçadão criado por Burle Marx é fantástico, em qualquer lugar que você vá é possível ver as montanhas e o mar.
Visitei Cantagalo e Pavão-Pavãozinho, a favela que tem um elevador. O problema social é terrível, há esgoto correndo nas ruas, há lixo em toda a parte. Mas esse não é um problema só do Rio: é um problema global. O terrível é a diferença de renda entre os mais pobres e os mais ricos.

O sr. viu as obras que foram feitas nessa favela?
Gostei das mudanças, principalmente do elevador. É um bom começo porque aproxima a favela da cidade. O problema é como distribuir os benefícios da cidade nessas áreas, como fazer os ricos ficarem mais próximos das favelas e como fazer a favela ficar mais perto dos ricos. Essa mistura é essencial para integrar esses dois mundos.

O sr. acha que é possível integrar mundos tão separados?
A integração é a única solução para as cidades. Em Londres, não temos favelas. Mas temos pessoas vivendo em habitações sociais, que são subsidiadas pelo governo. São prédios privados, nos quais o governo pode colocar pessoas pobres na porta ao lado de alguém muito rico. Um área só para ricos contraria a ideia de cidade.

O que fazer quando ricos não querem pobres ao lado?
O sistema londrino obriga bairros ricos a terem habitações sociais. Esse tipo de sistema já é aplicado na Holanda, na Dinamarca e na Suécia. É preciso criar leis para ter essa integração.
O problema de pobres e ricos no Brasil é igual ao que existia entre brancos e negros nos Estados Unidos. Cidades não podem ter guetos, seja para negros ou pobres.

O sr. acredita em soluções para o trânsito com avenidas?
Isso é impossível. Não há soluções para o trânsito com carros. Estradas e avenidas para carros ocupam 60% da área de Los Angeles. É uma estupidez. Quanto mais estradas você abre, mais congestionamento você terá.
É preciso ter um sistema de transporte público realmente bom. Londres proibiu a abertura de estacionamentos na área central. Também é preciso controlar o número de carros que não estão em condições razoáveis. Há ainda pedágio para entrar no centro de Londres.
Tudo isso ajudou a criar um dos melhores sistemas de transporte público do mundo. Em Londres, 93% das pessoas usam transporte público.

O sistema de ônibus em Curitiba seria uma solução para cidades mais pobres?
Claro. Você precisa ter metrô e ônibus de alta qualidade. É inacreditável que em São Paulo as pessoas aceitem andar de carro a dez quilômetros por hora. A pé é mais rápido. É preciso cobrar mais impostos de carros para melhorar o transporte público.

O que São Paulo pode fazer?
Cingapura, como Curitiba, é um bom modelo. Lá, os impostos de carros são altíssimos e há pedágio no centro. É preciso restringir carros para ter mais espaço público. Espaço público é a principal razão para as pessoas gostarem de viver em cidades.

Como uma cidade faz para ter mais espaços públicos?
Precisa ter parques em todos os distritos. Curitiba fez isso. Jaime Lerner fez um trabalho brilhante. Curitiba é um modelo mundial. Um dos segredos é controlar as forças do mercado.

Como se faz isso?
As cidades precisam de leis para controlar as forças do mercado. Ajudei o primeiro ministro Tony Blair a preparar um plano para as cidades governadas pelo Partido Trabalhista.
O plano dizia que as pessoas têm direito a espaços públicos, assim como têm direito a água. Que as cidades devem ter leis que obriguem bairros ricos a ter habitações sociais. E têm de limitar os carros no centro.

Durante a crise de 2009, o ex-presidente Lula reduziu os impostos de carros para manter os empregos e as vendas.
Não é uma boa ideia. Emprego é uma questão séria, mas é preciso adotar soluções que não levem à desertificação do mundo ou ao fim da floresta amazônica. Um terço da poluição do mundo vem dos carros. Reduzir imposto de carro não faz o menor sentido hoje.

O sr. e Renzo Piano criaram na metade dos anos 70 o Beaubourg, em Paris. Por que ele fascina tanto as pessoas?
SP e Rio têm prédios brilhantes de arquitetura moderna, como os de Niemeyer. Mas em Paris não havia isso. Foi uma surpresa. Fizemos um prédio para abrigar todos os tipos de pessoa e que tivesse interação com a cidade. O Beaubourg é popular porque é um palácio da diversão.

O governo de SP tenta recuperar uma área degradada, a Luz, com museus e salas de concerto. Isso funciona?
Não. Você precisa de usos mistos para recuperar uma área. Não faz sentido uma área só com shopping ou escritórios. Os governos estão fascinados com museus, mas só isso não funciona.
Meu escritório fica numa área de Londres onde as pessoas não podiam ir há 15 anos de tão perigosa que era. Hoje é uma das melhores áreas de Londres. Isso ocorreu porque há escritórios, moradias e museus. Quanto mais misturado, melhor.

O acidente nuclear, por Gabeira e Sirkis

Prezados(as) Verdes,

Tomara que vocês também tenham tido a mesma oportunidade e alegria que tive ao rever MARINA, hoje, no programa ESQUENTA, na Globo, com toda a sua firmeza e serenidade, mesmo sendo aplaudida de pé por todos e após Regina Casé afirmar que “Ela não é um mito… é uma inspiração”.

Abaixo, envio algumas considerações de Fernando Gabeira e Alfredo Sirkis sobre o acidente nuclear no Japão, consequência do maior terremoto e tsunami já enfrentados pelos japoneses.

Saudações Verdes,

Fernando Menandro – Coord. PV Sul RJ

AUMENTA O PERIGO NUCLEAR NO JAPÃO, por Fernando Gabeira
http://blogs.estadao.com.br/fernando-gabeira/2011/03/13/aumenta-o-perigo-nuclear-no-japao/#comment-1415

Uma interessante reflexão para os países que – como o Brasil – já possuem Usinas Atômicas e pretendem construir outras:

Blog do Sirkis: O que nos ensina o acidente nuclear no Japão?
alfredosirkis.blogspot.com

NO AVIÃO

Já começaram espaçosos e mentindo que toda a fileira 12 era da família. Dois dos filhos tiveram que ir para seus lugares de verdade.

Aí o pai disse ao filho que ficou que mentisse a idade à aeromoça para continuar no assento ao lado da porta de emergência.

Descoberta a bobeira pela mesma aeromoça, o jovem passou uma certa vergonha e teve que trocar de lugar, também.

Em seguida, percebi que o casal de pais não tinha a intenção de desligar seus celulares, apesar do pedido do chefe dos comissários para que todos o fizessem.

Dito e feito. Ele desligou o Ipod mas ela continuou freneticamente teclando seu Blackberry, mesmo com o avião já a ponto de decolar, o que todos sabemos que é proibido.

Só parou e desligou quando a fiz ficar com o rosto vermelho ao gentilmente avisá-la, em voz baixa (que todos puderam ouvir) que ela deveria fazê-lo

Durante o vôo percebi que o casal e seus três filhos usavam, todos, roupas com marcas caras bem visíveis, relógios de luxo, tinham vários acessórios eletrônicos, enfim, davam mostras de serem bons consumidores, talvez consumistas em excesso.

Minha leitura, durante o vôo, foi “Economia Bandida”, de Loretta Napoleoni, aliás ótimo livro.

Incrível como casou o texto com a situação.

Como esperar que os três jovens cresçam respeitando a ética a partir de pais com comportamento claramente antiético?

Fico imaginando se são daqueles que clamam por ética na política. Devem votar muito mal. Quem sabe até não são alimentadores de processos públicos ou privados ilegais ou de políticos corruptos.

Quero estar enganado.
Fernando Guida