-

Governo Trump volta a autorizar uso de bombas de cianureto para matar animais silvestres

Postado em

Governo Trump volta a autorizar uso de bombas de cianureto para matar animais silvestres

A Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos (EPA, na sigla em inglês) anunciou nos últimos dias que irá liberar novamente o uso de bombas de cianureto de sódio para matar animais selvagens.

Os dispositivos químicos, conhecidos como M-44, são colocados no solo, como bombas terrestres. Quando o animal é atraído por eles por uma isca, um ejetor de molas libera o gás tóxico e letal.

As bombas são utilizadas por fazendeiros e pecuaristas para proteger seus animais do ataque de lobos, coyotes, raposas e outras espécies predadoras.

Todavia, em 2017, uma dessas armadilhas matou um cachorro doméstico e feriu seu dono, um garoto, no estado de Idaho. A família processou o governo.

Em outro caso, a bomba química matou um lobo no Oregon. O animal fazia parte de uma espécie ameaçada em extinção.

No final do ano passado, a EPA suspendeu a venda das bombas de cianureto de sódio e abriu uma consulta pública sobre o problema. Apesar de ter recebido mais de 20 mil cartas – a maioria delas pedindo que o produto fosse banido de vez -, a agência decidiu liberar novamente o dispositivo, mas com algumas novas restrições e modificações no rótulo.

“As bombas são perigosíssimas para as pessoas, seus bichos de estimação e animais selvagens ameaçados”, alertou Collette Adkins, diretora de Conservação de Carnívoros do Centro para a Diversidade Biológica dos Estados Unidos, em entrevista à AFP.

De acordo com dados do governo americano, em 2018, 6.579 animais morreram por causa da armadilha, incluindo 200 que não eram tidos como alvo, entre eles guaxinins, gambás e um urso.

Em 2018, o governo do presidente Donald Trump também anunciou sua intenção de “flexibilizar” uma lei de 100 anos de proteção a aves migratórias e alguns meses antes, já tinham sido feitas mudanças nas regras para a caça, com a volta de métodos cruéis contra ursos e lobos.

Ou seja, sob a administração Trump, cada vez mais os animais nos Estados Unidos deixam de ser protegidos e se tornam alvo fácil para caçadores. Triste, muito triste.

*Com informações da CNN

#BICICLETA #BIKE #MOBILIDADE #SUSTENTABILIDADE #ESPORTE #LAZER #SAÚDE

Postado em Atualizado em

A relação entre ciclismo, meio ambiente e mobilidade urbana

La relación entre el ciclismo, medio ambiente y movilidad urbana

*Mestrando em Educação Física e Cultura na

Universidade Gama Filho – Rio de Janeiro – Brasil (UGF/RJ)

Bolsista CNPq

**Mestrando em Educação Física e Cultura na

Universidade Gama Filho – Rio de Janeiro – Brasil (UGF/RJ)

– ***Doutora em Educação, Docente no PPGEF da UGF/RJ

****Doutora em Educação Física e Cultura

Docente Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro

Ulysses Vitorino dos Santos*

Eduardo Rodrigues da Silva**

Nilda Teves Ferreira***

Vera Lucia de Menezes Costa****

uvds@oi.com.br

(Brasil)

 

Resumo

          Este estudo pretende realizar uma reflexão sobre o ciclismo como opção de esporte, lazer e transporte urbano, focando sua relação com a crise ambiental e o discurso do desenvolvimento sustentável, bem como as questões relativas à crise de mobilidade urbana nas grandes cidades. Busca refletir sobre a inserção da bicicleta nesse cenário como opção de transporte ecologicamente correta, sustentável, contribuindo assim para a preservação do meio ambiente, para um acesso democrático ao espaço urbano e para a melhoria da qualidade de vida das pessoas.

          Unitermos: Ciclismo. Meio ambiente. Urbanismo.

 

EFDeportes.com, Revista Digital. Buenos Aires, Año 15, Nº 150, noviembre de 2010. http://www.efdeportes.com/

1 / 1

1.     A crise ambiental

    Vivemos em uma época onde o meio ambiente começa apresentar sinais de desgaste. A tecnologização da sociedade trouxe diversos benefícios e comodidades ao homem, como o automóvel, o telefone celular e o controle remoto. Os avanços na medicina e a facilidade de acesso às informações, consequencia do advento da Internet, possibilitaram o aumento da expectativa de vida da população, ocasionando assim um crescimento populacional. A revolução industrial permitiu o aprimoramento na organização do capitalismo reforçando a visão Cartesiana de ser dono e senhor da natureza. A natureza como “objeto de conhecimento” que pudesse ser manipulada sem conseqüências nefastas. Com o passar do tempo (séc. XVIII aos dias de hoje), o modo de produção baseado na produção/ consumo levou esse homem a devastar florestas, poluir rios, desconsiderar as variáveis sociais e ambientais em nome o progresso. Desconsiderou, também que o esgotamento dos recursos naturais comprometeria sua qualidade de vida colocando sua errância nesse planeta em risco.

    O resultado que encontramos é a degradação dos ecossistemas, níveis de poluição atmosférica altíssimos e conseqüente alterações no clima, extinguindo espécies animais e vegetais. Todos esses fatores acabam por comprometer as condições de vida no planeta. Desastres ambientais se tornam cada vez mais frequentes, casas, bairros e cidades destruídas, milhares de pessoas mortas, outros milhares desabrigadas e doentes. Isto levou o homem a perceber que os recursos naturais não eram inesgotáveis e que a idéia de progresso infinito, que procura validar o modelo de desenvolvimento vigente já se torna centro de discussões internacionais. Uma avaliação crítica de nossa sociedade nos leva a crer que passamos por um processo de insustentabilidade, não só ambiental, mas, também, de nossos estilos de vida individual e social bem como de nossas relações com o mundo natural (Leis, 1999). Para este autor, a evidência dessa insustentabilidade está no caráter antropocêntrico da cultura ocidental que, através da instrumentalidade do conhecimento e da razão e de um individualismo (em massa) expresso no consumo e no império do mercado e das mercadorias, acaba por perpetuar a separação entre a sociedade e a natureza.

    A rigor, a problemática ambiental começa a ser levada a sério com a descoberta do buraco na camada de ozônio, na década de 1980. Percebeu-se que se o processo produtivo continuasse no ritmo que vinha, a destruição da vida terrestre era uma questão de tempo. Esses fatos levam o homem a refletir sobre suas ações na natureza repensando sua relação com a mesma. A comunidade internacional se mobilizou em busca de soluções para amenizar o impacto do desenvolvimento sem medidas no meio ambiente. “Nesse momento se apresenta o discurso do Desenvolvimento Sustentável”. (PINHEIRO, 2008). A partir daí, muitas pessoas começam a se organizar e surgem movimentos visando maior harmonia entre homem e natureza. Já em 1992 acontece a ECO-92 – Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente, com a participação de representantes de mais de 170 países e de toda a sociedade. Dessa conferência surgiu a Agenda 21, documento que visa harmonizar o desenvolvimento social com a preservação do meio ambiente – e em 1997 mais de 189 nações assinam o Protocolo de Kyoto, iniciativa internacional que visa conter a emissão de gases do efeito estufa, como o dióxido de carbono (CO2). Os países que aderiram ao protocolo se comprometeram a reduzir a emissão de gases poluentes na atmosfera.

    Entre as causas do aquecimento global, o automóvel pode se configurar em um dos principais agentes poluidores da atmosfera uma vez que a fonte de sua energia é a queima de combustíveis fósseis. De acordo com dados do Departamento Nacional de Trânsito (DENATRAN), 460.537 veículos foram fabricados e emplacados no Brasil de janeiro a março de 2009. Conseqüência da má qualidade dos transportes públicos, o aumento da frota de veículos no país também causa problemas no trânsito. Congestionamentos de grande extensão já se tornaram rotina em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro, levando o Brasil a enfrentar uma crise de mobilidade urbana. Os deslocamentos feitos atualmente se configuram como verdadeiros desafios para aqueles que necessitam dispor desses horários e para os que não o fazem, mas que são afetados pela emissão de gases e ruídos. Pode-se dizer que o que foi dito acima compromete a qualidade de vida das pessoas que se deslocam no meio urbano. Além de aumentar a poluição do ar, o excesso de veículos motorizados pode causar estresse e outros males físicos e psicológicos, em motoristas e passageiros. Diante disso, medidas já estão sendo adotadas em algumas cidades do país de modo a atender os preceitos da Agenda 21 e do protocolo de Kyoto, bem como aliviar o trânsito nos grandes centros. Como é o caso de Ubatuba no litoral norte de São Paulo, onde foi criado o Programa Cilcloviário de Ubatuba obtido pelo site http://jornadaexperimental.blogspot.com. O Governo Federal por sua vez, também vem adotando medidas nesse intuito como, por exemplo, o Programa Brasileiro de Mobilidade por Bicicleta – Bicicleta Brasil, criado pela Secretaria de Transporte e Mobilidade Urbana – SeMob do Ministério Das Cidades. O conceito de Mobilidade Urbana Sustentável aparece como resultado de um conjunto de políticas de transporte e circulação que visam proporcionar um acesso amplo e democrático ao espaço urbano, através de priorização dos modos de transporte coletivo e não motorizados de maneira socialmente inclusiva e ecologicamente sustentável. E para a implementação desse conceito parte da inclusão da bicicleta nos deslocamentos urbanos.

2.     A bicicleta

    A bicicleta veio para preencher uma necessidade da vida do homem e está até hoje integrada com o ser humano. A história de sua invenção ainda gera discussões acerca de quem a inventou. Um dos primeiros modelos de bicicleta que se tem registro é o chamado celerífero ou cavalo de duas rodas no ano de 1790. Inventada pelo conde Sivrac, compreendia uma trave de madeira colocada sobre duas rodas, um modelo bem arcaico longe das bicicletas que temos nos dia atuais, não possuía pedais, o movimento se dava pelo impulso dos pés no chão e só andava em linha reta já que não tinha direção.

    Mais tarde em 1818 a bicicleta foi aperfeiçoada pelo barão alemão Karl Friederich Christian Luudwwig Drair Von Samerbram. O barão criou a Draisienne, com uma roda dianteira que se movia ao redor de um eixo vertical, e uma barra transversal que permitia girar a roda para a direita e para a esquerda (guidão). Esse aparelho ainda era movido pela ação dos pés sobre o solo.

    Em 1861, Pierre Michbaux recebe uma draisienne para reparos. Seu filho Ernest teve a idéia de colocar uma manivela na roda dianteira, nasce o velocípede com sua roda dianteira desproporcionalmente maior em relação à traseira e um pé de vela dianteiro. O velocípede foi aperfeiçoado com o tempo, surgindo os freios, os pneus com válvula para encher de ar, os pedais passaram para o centro da bicicleta jogando a tração para a roda traseira. A popularidade da já chamada bicicleta era enorme (TUBINO, 2007).

    Em 1890, somente na França existiam cinco mil ciclistas, em 1900 esse número aumentou para dez milhões. Muito usada como meio de transporte, bastante econômica, a bicicleta necessita espaço reduzido e sua manutenção não requer gasto exagerado, o que a torna ainda mais atraente.(CARPES & ROSSATO, 2005) Atualmente as bicicletas são diferenciadas de acordo com o objetivo do praticante podendo, estas, serem caracterizadas como de passeio, utilizadas por ciclistas eventuais que procuram pura e simplesmente o prazer e diversão de andar de bicicleta; a de estrada recomendada para quem quer pedalar no asfalto ou participar de provas clássicas de ciclismo, e aquelas feitas para terrenos irregulares e trilhas, a mountain bike.

3.     O ciclismo

    De acordo com Tubino (2007) o ciclismo é um esporte por equipe ou individual onde o sujeito utiliza a bicicleta para disputar corridas em estradas, pistas cobertas ou não, terrenos acidentados com aclives e declives dentre outros, permitindo também a prática do esporte-lazer. Condicionada a história da evolução da bicicleta, a história do ciclismo começaria apenas em 1855 com a introdução do pedal. Treze anos mais tarde, foi realizada a primeira competição de ciclismo no parque Saint-Cloud, em Paris numa distância de 1.200 metros. A primeira grande prova aconteceu em 1869 no percurso Paris – Rouen, de 123 Km, vencida pelo inglês James Moore com a marca de 12 Km/h, que era impressionante a época. No ano de 1890 quando, na cidade de Paris, foi construído o primeiro velódromo, já havia cinco mil ciclistas somente na França (CARPES & ROSSATO, 2005).

    O ciclismo caracteriza-se pelo uso da bicicleta, sendo que as disputas são realizadas em estradas, trilhas ou em recintos fechados, estes em locais especiais ou velódromo, com pista de madeira. Para a prática desses esportes é necessário que a máquina utilizada esteja em perfeita harmonia com a habilidade do ciclista.

    Conhecido em todo mundo, o ciclismo teve sua prática essencialmente esportiva separada do emprego da bicicleta como lazer, iniciada em meados do século XIX, na Inglaterra, logo que os aperfeiçoamentos na fabricação do veículo possibilitaram o alcance de maiores velocidades. Em 1865, já existiam na Inglaterra alguns círculos entusiastas do esporte, e vinte anos depois, com sua difusão por toda a Europa, era fundada na França, a União Ciclística Internacional. Desde a primeira Olimpíada da época moderna, em Atenas-1896, o ciclismo integra os jogos Olímpicos.

    Poucos esportes alcançaram na Europa o prestígio do ciclismo, que passou a integrar os campeonatos pan-americanos e sul-americanos. As provas são realizadas individualmente ou em conjunto, em bicicletas de um ou dois lugares, de velocidade, de resistência ou de revezamento.

    Os circuitos Paris-Roubaix, Paris-Yours, Bordeaux-Paris, Milão-San Remo, a Volta da França, a Volta da Itália, são algumas das corridas de estrada mais conhecidas.

    O ciclismo no Brasil já era praticado em fins do século XIX e, em são Paulo, já vinha sendo considerado como o esporte da moda, onde foi construído um velódromo. Em 1925, surgiu a Federação Paulista de Ciclismo. O primeiro campeonato brasileiro aconteceu em 1938, na cidade de Porto Alegre.

    A bicicleta de competição é diferente da comum, sendo mais leve e dotada de dispositivos de mudança de marcha que permitem ao ciclista o desenvolvimento de maiores velocidades.

 

3.1.     O ciclismo no espaço urbano

    O espaço urbano se configura como reflexo da sociedade e, conseqüentemente, um condicionante social. Um espaço fragmentado e articulado. Corrêa (2005) o define como um conjunto de símbolos e um campo de lutas. Produto, condição e meio para a reprodução das relações sociais, um espaço para a realização do ser social. Qualquer análise nesse espaço implica na análise da vida humana em sua multiplicidade.

    E é nesse espaço de lutas e realizações do ser, que nos deparamos com algumas das grandes questões da atualidade: a crise de mobilidade urbana e a crise ambiental. Ambas contam com um agente desencadeador em comum: o automóvel. Como dito anteriormente, o aumento da frota de veículos motorizados no país vem causando grandes transtornos no que se refere à mobilidade urbana e conseqüentemente gerando danos ao meio ambiente, com o aumento da emissão de dióxido de carbono. Nesse contexto entra em cena a bicicleta como alternativa para o alívio no trânsito das grandes cidades e também como transporte ecologicamente correto, já que não emite gás carbônico.

    Utilizar a bicicleta como alternativa para a redução do nível de poluição atmosférica não é coisa inédita. Em Amsterdã, na Holanda, que tem uma população de 730 mil moradores, existem 600 mil bicicletas e conta com mais de 400 quilômetros de ciclovias, e exemplos assim se espalham pelo mundo. Na França, em julho de 2007, mais de 20 mil bicicletas foram disponibilizadas pelo poder público em 1250 locais diferentes da cidade de Paris, principalmente nas estações de metrô. Berlin, na Alemanha, adotou o sistema de bicicletas públicas localizáveis por satélite. O custo é oito centavos por minuto. Já a China parece que caminha em sentido contrário. País que sempre chamou a atenção pelo uso da bicicleta, agora vive a invasão automobilística. Só na capital chinesa mais de 2,4 milhões de pessoas se locomovem de bicicleta diariamente, desde crianças escolares até profissionais de destaque na sociedade como o ambientalista chinês Liang Congjie, que diz usar a bicicleta desde a escola. Para ele já não é mais seguro pedalar pelas ruas de Pequim.

    No Brasil várias são as cidades onde é crescente o uso das bicicletas como meio de locomoção, como é o caso de Curitiba que tem 120 quilômetros de ciclovias que ligam 20 parques e bosques da capital paranaense. Estimativas apontam que na cidade, onde vivem 1,7 milhão de habitantes, existe uma frota de 121 mil bicicletas. A cidade de Sorocaba também se destaca através de seu Plano cicloviário, que enfatiza a bicicleta como um meio de transporte saudável, pois possibilita o lazer, o esporte e uma melhor mobilidade urbana.

    Estudos realizados na cidade de São Paulo, elaborados pela Companhia de Engenharia de tráfego (CET) e pela São Paulo Transportes S.A. (SPTrans) apontam que dos 23,4 milhões de viagens diárias na capital paulista, 130 mil são realizados com o uso das bicicletas e 5,1 milhões por automóveis. A pesquisa mostra ainda algumas das vantagens da bicicleta como meio de locomoção: baixo custo na aquisição e manutenção, agilidade nos deslocamentos para distâncias até cinco quilômetros, menor interferência no espaço público da cidade, contribuição à saúde do usuário e reduzido impacto ambiental. Segundo dados do Ministério das cidades e estudos da Associação Nacional dos Transportes Públicos – ANTP, 7,4 % dos deslocamentos feitos no Brasil são realizados de bicicleta, o que representam mais de 15 milhões de viagens diárias.

    É notório o uso cada vez maior da bicicleta, seja por jovens ou adultos, para irem trabalhar ou estudar, e mais ainda como prática esportiva e de lazer. Nesse cenário a bicicleta emerge como alternativa para uma mobilidade urbana sustentável, pois a emissão de dióxido de carbono é zero, já que ao se locomover de bicicleta as pessoas não utilizam energia proveniente dos combustíveis fósseis, mas sim a energia do próprio corpo. Ao fazer isso, o sujeito pode vir a melhorar seu condicionamento físico bem como os sistemas cardiovascular e respiratório, promovendo maior gasto calórico, resistência muscular e diminuição do estresse. A bicicleta surge, além de opção de transporte urbano ecologicamente correto, também como opção de lazer e prática esportiva.

    Ao ter a bicicleta como instrumento de sua prática, o ciclismo assume um papel importante na conjuntura político-ambiental da atualidade, pois a bicicleta além de possibilitar a prática esportiva, é também meio de transporte e o mais importante, não polui o ar com emissão de gases do efeito estufa, ao contrário do automóvel.

    No meio urbano, esse veículo de duas rodas vem ganhando destaque através de medidas e projetos implementados nacional e internacionalmente. No Brasil, o Ministério das cidades confirma essa política com a criação do Programa Brasileiro de Mobilidade por Bicicleta – Bicicleta Brasil, dito anteriormente. Entre ruas e avenidas, carros e ônibus, a bicicleta assume diversas finalidades. Tem um grupo de pessoas que a utilizam como meio de transporte: a) para estudar, b) para trabalhar c) ou para garantir seu próprio sustento. Enfim, pessoas que trabalham pedalando. Tudo isso pode ser acrescentado àqueles que pedalam em seus momentos de lazer.

3.2.     O ciclismo na natureza

    A preocupação mundial com a preservação do meio ambiente encontra eco no movimento esportivo, como podemos verificar na 8ª Conferência Mundial sobre Esporte e Meio Ambiente, realizada em março de 2009 em Vancouver, que estabelece: a) luta contra a mudança climática; b) redução de resíduos; c) reforço da biodiversidade; d) promover a inclusão e e) incentivar a vida saudável. As conclusões e recomendações da conferência exortam as entidades interessadas a agir no intuito de uma maior sensibilização das questões ambientais, onde as federações internacionais serão encorajadas a adotar políticas de sustentabilidade redirecionando-as às federações nacionais.

    Essa relação esporte/natureza nos dizeres de Bento (apud DA COSTA, 1997, p. 61) ressalta a tendência, de levar o desporto para o espaço aberto, para o ar livre, para o exterior, para a natureza.

    Nesse sentido cresce o número de modalidades esportivas que levam seus praticantes à natureza, e também o número de pessoas que chegam a ela pelo esporte. Talvez isso se deva às questões ambientais em voga, uma vez que o esporte, de uma maneira, geral não deixa de ser afetado pelas questões que afligem a humanidade, bem como as próprias de seu enredo, tais como os casos de doping, a corrupção dos dirigentes e o aumento da violência nas disputas esportivas (TUBINO, 1999). Hoje, uma nova questão se apresenta ao esporte: a degradação do meio ambiente, o que de acordo com Vieira (2004), pode privar as pessoas de um direito garantido pela Constituição Federal, o direito à prática esportiva.

    No campo relacional esporte/meio ambiente encontramos o ciclismo, um esporte que permite um contato direto com a natureza, onde podemos perceber os efeitos da degradação do meio ambiente, bem como o contato com o meio urbano, local onde se encontra um dos principais agentes poluidores da atmosfera: o automóvel. A conscientização ecológica pode ser vital tanto no natural quanto no urbano, é o papel social de cada um e do esporte.

    Nesse sentido, alguns esportes que dependem do meio natural para sua prática surgiram, como é o caso do mountain bike (MTB), uma modalidade do ciclismo praticada na natureza, nos mais variados terrenos que, por suas características, classifica-se na corrente dos esportes-aventura/na natureza/radicais.

    O mountain bike teve início em 1933 nos EUA com a introdução da bicicleta com pneu balão, ficando esquecido por um período e reaparecendo na década de 1970 nas montanhas da Califórnia. Surge como alternativa a proibição da utilização de motocicletas em descidas de montanhas, devido aos estragos causados por essas ao meio ambiente. O esporte difunde-se, ao final da década de 1980, pelo continente Europeu e Oceania tornando-se esporte olímpico nos Jogos de Atlanta em 1996.(TUBINO, 2007) O mountain bike brasileiro nasceu no município de Paraíba do Sul, interior do Estado do Rio de Janeiro, no começo do ano de 1988 com a organização do 1º Mountain Bike Cup Fazenda Hotel Jatahy. No momento em que ocorrem debates acerca da problemática ambiental, o MTB cresce no cenário nacional sendo notória a adesão de diversas pessoas a esse esporte em seus momentos de lazer.

    Nesses momentos os bikers – praticantes de mountain bike, se libertam do mundo cotidiano entrando em um mundo paralelo, um mundo de prazer, de novas descobertas. Onde a cada trilha, a cada curva surgem novos desafios, novos cenários, novos motivos para seguir em frente. Às vezes, na frente ditando o ritmo, apontando o horizonte, às vezes por último pelo simples prazer de apreciar aquele contraste de cores, cadenciado, em ritmos diversos, mas com um mesmo pulsar. Nesse mundo, o caminhante dos pedais pode ir aonde quiser e sem o consumo de combustíveis, mas através da transformação da energia de seu próprio corpo, e perceber que a energia que ele gasta ao pedalar tem uma dinâmica de preservação dele mesmo, que faz bem para a saúde e ainda preserva a natureza.

    Pedalar uma bicicleta é desvendar belas paisagens em suas trilhas, interagindo com elas, imprimindo-lhes sentidos e significados ao longo de suas trajetórias, tal como falou Corrêa e Rosendahl (1998). E nessas trajetórias, a bicicleta também assume um valor simbólico, ganha uma energia poderosa capaz de tirar o biker de sua condição profana e levá-lo a um outro plano, sagrado, onde a bicicleta é a personificação da busca de novos caminhos, novas descobertas e possibilidades, da busca de novos horizontes. Um efeito mediador entre o sagrado e o profano, uma hierofania (COSTA, 1999).

4.     Considerações e recomendações

    A relação entre esporte e meio ambiente é uma relação de mão dupla, no momento em que o esporte pode exercer uma influência positiva sobre o meio ambiente, desde que seja praticado de forma consciente, respeitando a natureza e, por outro lado, pode ocasionar alterações no mesmo ou até destruí-lo. E essas alterações ainda podem ameaçar a prática dos esportes que dependem desse ambiente.

    A crescente preocupação com os problemas concernentes a preservação da natureza, tanto pela sociedade civil quanto pelo poder público, volta-se inevitavelmente ao esporte, em especial àqueles que dependem do meio natural para sua prática como é o caso do mountaim bike. Contudo a prática desse esporte não se restringe à natureza, ela se dá também no meio urbano, onde a bicicleta assume um importante papel no discurso da sustentabilidade, daí seu compromisso com a natureza e o meio ambiente.

    Vivemos em um mundo marcado cada vez mais pela interdependência entre povos e nações. Tal processo se reflete nas diversas sociedades onde cada vez mais se faz necessário uma integração entre seus mais variados setores, a fim de buscar uma solução para a atual crise que é ao mesmo tempo conjuntural e civilizatória. Nesse sentido a bicicleta aparece como uma importante aliada nessa busca, pois ela é considerada como um meio de transporte não-motorizado, tendo sua utilização voltada para os mais diversos fins no espaço urbano, se configurando numa peça fundamental na solução dos problemas de mobilidade urbana e de valiosa ajuda na redução de gases do efeito estufa.

    A bicicleta é também instrumento da prática do ciclismo, um esporte que se faz presente tanto no meio urbano como no meio natural, proporcionando um contato direto com os problemas de mobilidade ao ser praticada nas cidades, bem como um contato com a natureza através de sua prática enquanto esporte-aventura/na natureza, o mountain bike, podendo proporcionar a construção de novas subjetividades, novas singularidades capazes de reorientar novos valores, interesses e comportamentos incompatíveis com a sustentabilidade ambiental (LEIS, 1999).

    Para Guattari (1990), o esclarecimento de tais questões depende da articulação das três ecologias (ecologia do meio ambiente, das relações sociais e da subjetividade), que são as relações do homem com o meio em que ele vive, com os outros homens e com sigo mesmo. Assim o esporte, em especial o ciclismo, assume esse papel uma vez que ele pode nos proporcionar uma relação com o meio em que vivemos já que quando praticamos, o fazemos em algum lugar e também uma relação com as outras pessoas quando praticado com/contra outras pessoas. Quando praticado solitariamente, o ciclismo pode propiciar um encontro conosco mesmo, com nossa subjetividade, nossos medos, crenças, fantasias, devaneios. Pode nos levar a uma reflexão de nossas atitudes e valores para com os seres humanos e não humanos que constituem essa supra-unidade biótica e abiótica chamada Gaia (LOVELOCK, 1991).

    É preciso debruçar na construção dessa nova subjetividade, indo ao sentido de uma re-singularização individual e coletiva, no tangível e intangível. Mas o esporte em si não basta, depende de quem o pratica, desse ser que anda, que corre, pedala, desse ser que vê, admira, sente, chora.

    Logo, será relevante que em estudos posteriores analisemos os sentidos que o meio ambiente e o próprio ciclismo tem para esses sujeitos, de que forma a natureza e o discurso do desenvolvimento sustentável aparecem em seus imaginários e quais os mitos, crenças e ideologias conduzem seus comportamentos. Investigar, pois, a realidade social de cada grupo apreendendo sua ordem constitutiva. Para isso é preciso mergulhar nos caminhos sinuosos desse imaginário que de certa forma regula os comportamentos recíprocos dos indivíduos (FERREIRA, 1992). Caminhar pela linguagem, por meio da análise dos discursos, das imagens e dos contos, para encontrar pistas que revelem o imaginário social dos ciclistas. Pois acreditamos que ao desvendar tal imaginário, possamos contribuir com um estudo que trate dessa relação esporte e meio ambiente não somente sob o ponto de vista dos esportes de aventura na natureza, mas também sob a ótica do meio urbano, da urbe, cenário ou forja de modelação, de reconhecimento e concretização de aspirações e direitos, de sonhos e utopias.

Agro no clima

Postado em Atualizado em

Metodologia vai ajudar a aplicar os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável na cadeia do agronegócio brasileiro

Gado convive de forma harmoniosa com a floresta de eucalipto. Foto de Simone Marinho
Gado convive de forma harmoniosa com a floresta de eucalipto: agronegócio brasileiro responde por 71% das emissões totais do país (Foto: Simone Marinho)

Das pautas mais importantes da exportação brasileira, o agronegócio está com os dois pés no futuro e longe das nossas referências equivocadas de um produtor rural atrasado, com técnicas ultrapassadas e muito menos com interesses devastadores em relação ao meio ambiente.

O agronegócio, o bom agronegócio brasileiro, que faz sucesso lá fora, garante os excelentes números da nossa balança comercial, e sabe que além de rentável, a sustentabilidade é uma pauta importante para dar garantias de credibilidade no mercado internacional.

Não é à toa que vemos a cadeia do agro brasileiro buscando se integrar a programas que auxiliam a aplicação dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável (ODS), seguindo o que já está sendo feito no país em outras indústrias. Em maio, foi para o português o Roadmap da aplicação dos ODS na indústria química, produzido pelo World Business Council for Sustainable Development (WBCSD), que é representado no Brasil pelo Conselho Empresarial Brasileiro para o Desenvolvimento Sustentável (CEBDS). Já estão a caminho outras ferramentas semelhantes para mineração e o setor de petróleo.

Também no mesmo mês, CEBDS, Bloomberg e WBCSD convocaram um diálogo para os agronegócios brasileiros explorando os impactos relacionados ao clima, bem como os desafios e oportunidades associados à implementação das recomendações do Grupo de Trabalho sobre Divulgações Financeiras Relacionadas ao Clima (TCFD).

Os principais temas que surgiram ao longo das discussões centraram-se em finanças e resiliência, ou seja, como comunicar e financiar soluções inovadoras, e como as empresas – particularmente as agroindustriais – podem e devem se preparar, adaptar e responder às mudanças climáticas. No último dia 31 de junho, tivemos o lançamento da metodologia para aplicação dos ODS na cadeia do agronegócio brasileiro, feito pela Rede Brasil do Pacto Global, com o objetivo de auxiliar as empresas a “internalizar” os ODS que mais têm a ver com seu negócio. Entre os destaques, estão no foco o uso dos recursos hídricos, uso de agrotóxicos e a relação direta do setor de agronegócios com o clima, já que a agricultura não só é afetada diretamente pelas mudanças climáticas, mas ao mesmo tempo é grande responsável pelo aquecimento global, na medida que representa boa parte das emissões de gases do efeito estufa.

Somando-se as emissões indiretas, por desmatamento, e as diretas, o agronegócio brasileiro responde por 71% das emissões totais do país, e está no centro da  contribuição nacionalmente determinada (NDC) ao Acordo de Paris, que inclui recuperar mais de 15 milhões de pastagens degradadas e reflorestar outros 12 milhões de hectares, além de reduzir a zero o desmatamento ilegal até 2030.

No CEBDS, coordenamos o braço brasileiro do programa Inteligência Agroclimática (IAC), que, ao nosso ver, tem inúmeras contribuições se levado em larga escala para um efeito ganha-ganha do agronegócio e meio ambiente no País. O objetivo principal do IAC é reduzir em 50% as emissões de gases do efeito estufa por parte da agricultura até 2030, com o aumento de até 50% da produtividade, usando técnicas agroecológicas avançadas.

Por esse programa, são promovidos um conjunto de técnicas agrícolas e tecnologias de ponta, que aumentam a produtividade usando uma inteligência de solo, com a aplicação correta, reduzida e sem desperdício de defensivos. Isso diretamente acaba acarretando na melhora de renda do agricultor. Apoiando o programa estão as multinacionais Bayer e DSM, além da Embrapa e da ONG Conservação Internacional.

Mais que tudo, é interesse do agricultor de bom senso preservar as fontes que são a boa matéria-prima do seu negócio: solo, água e vegetação. Sem o solo fértil, não há plantio rico. Gastar em produtos químicos para adequar o solo, aumenta custos. Garantir vegetação e água abundantes, evitando os estresses hídricos ou eventos recorrentes como inundações, é condição sine qua non do bom agronegócio. Que bom que essa estratégia está na pauta das grandes empresas e na cabeça dos que pensam no futuro deste negócio. Que essas iniciativas sejam escalonadas mais e mais, garantindo que as inovações compreendam sempre a atuação conjunta e harmônica do tripé do negócio sustentável, aquele que junta economia, ambiente e social.

Fonte: #COLABORA

O Brasil e a Transição Energética Mundial, por Ikaro Chaves

Postado em

A construção de políticas públicas visionárias no passado nos colocou como exemplo para o mundo, porém novos desafios se colocam ao país e caberá à atual geração de brasileiros encontrar as melhores soluções

Foto Cerne

Cresce a fome no mundo, mas a solução não está na agricultura industrial

Postado em

Artigo mostra que “é uma ilusão perigosa pensar que podemos resolver o problema da fome no mundo aumentando a produção mundial baseada na implantação da agricultura industrial”

BdF [87].jpg
 Por que continuamos a fazer as coisas de forma errada, acreditando que a produção de mais produtos agrícolas acabará com a fome? / Foto: Fernando Frazão, Agência Brasil

Por Timothy A. Wise*
Da IHU/Unisinos

Pelo terceiro ano consecutivo, diversas agências da Organização das Nações Unidas documentaram níveis crescentes de fome severa no mundo, afetando 820 milhões de pessoas. Mais de 2 bilhões sofrem de insegurança alimentar “moderada ou severa”. Durante o mesmo período, o mundo vem experimentando o que a Reuters denominou como uma “superabundância global de cereais”, com produtos agrícolas excedentes amontoados fora dos silos de grãos e apodrecendo por falta de compradores. Vê-se que o aumento das safras de grãos não reduz a fome global.
Apesar disso, não passa um dia sem que algum dirigente acadêmico, industrial ou político se una ao coro malthusiano para advertir sobre a iminência de fenômenos de escassez de alimentos causados pelo crescimento populacional e pela limitação dos recursos naturais. Por exemplo, Richard Linton, decano da Faculdade de Agricultura e Ciências da Vida da Universidade Estadual da Carolina do Norte, fez soar o alarme com palavras que nos são familiares: “Temos de encontrar uma maneira de alimentar o mundo, dobrando o suprimento de alimentos”, disse ele. “E todos nós sabemos o que acontecerá se não produzirmos comida suficiente: será guerra, competição”.
“Como vamos alimentar o mundo?”, exclama o pregador. “Aumentar nossa abundância”, responde o coro. Há muito equívoco nesta resposta. E mesmo na pergunta, que é profundamente arrogante. Como vamos alimentar o mundo? Sabemos a que nos referimos com essa pergunta: os países ricos, com sementes de alto rendimento e uma agricultura em escala industrial. Os Estados Unidos pensam que estão alimentando o mundo atualmente. Mas, não é correto.
Mais de 70% dos alimentos consumidos nos países em desenvolvimento, onde a fome é endêmica, são cultivados, em sua maior parte, por pequenos agricultores. Esses agricultores são os principais fornecedores de alimentos. E utilizam apenas 30% dos recursos agrícolas para isso (o que implica que a agricultura industrial utiliza 70% dos recursos para alimentar 30% da população). Lá fora não há nenhum mundo que aguarda, de braços cruzados, que seja alimentado. A maioria das pessoas que passam fome são pequenos agricultores ou pessoas que vivem em comunidades rurais. Não esperam que repartam alimentos com eles. Tentam ativamente – e muitas vezes desesperadamente – alimentar suas famílias e suas comunidades.

No entanto, o mundo já produz mais que o suficiente para alimentar 10 bilhões de pessoas, ou seja, cerca de 3 bilhões a mais do que somos atualmente. Por que continuamos a fazer as coisas de forma errada, acreditando que a produção de mais produtos agrícolas acabará com a fome? O economista indiano Amartya Sen ganhou seu Prêmio Nobel por demonstrar que a fome raramente é causada pela escassez de alimentos. Frances Moore Lappé nos mostrou, há quase 50 anos, em sua obra seminal ‘Dieta para um pequeno planeta’, que a fome não é causada pela escassez de alimentos. A fome é causada pela falta de poder dos produtores de alimentos e pessoas pobres. Poder sobre a terra, a água e outros recursos naturais que permitem a produção de alimentos. E poder para obter uma renda que permita que as pessoas adquiram a comida que precisam.

A ilusão de que alimentamos o mundo reside em lugares como Iowa, um território coberto de ponta a ponta por cultivos de grãos e soja, em um sistema concebido para ocupar até o último hectare de solo incomparavelmente fértil. Mas, é difícil encontrar evidências confiáveis de que a prolífica produção de Iowa esteja alimentando todas as pessoas famintas no mundo em desenvolvimento. Iowa alimenta principalmente porcos, galinhas, a indústria da comida lixo e de automóveis. Metade do nosso grão é usado para a produção de etanol e 30% do óleo de soja é usado agora para fabricar biocombustível. As pessoas pobres do mundo não podem se permitir comer carne, nem dirigir um carro. A comida lixo é a última coisa que precisam.
Exportamos cerca de metade de nossa soja e 15% de nossos grãos, mas nem mesmo essas quantidades servem para alimentar os famintos, porque são usados principalmente como forragem, especialmente para porcos, principalmente na China, o principal país produtor de suínos no mundo. Mas, os pobres não comem essa carne, mas, sim, principalmente a crescente classe média do país que a consome. Na melhor das hipóteses, a prodigiosa produção de grãos e soja de Iowa contribui para reduzir um pouco o preço dos alimentos nas classes médias emergentes do mundo em desenvolvimento. Mas, é uma ilusão dizer que Iowa alimenta pessoas famintas.
E é uma ilusão perigosa pensar que podemos resolver o problema da fome no mundo aumentando a produção mundial baseada na implantação da agricultura industrial. Perigosa porque a forma como esses alimentos são cultivados em fazendas de monocultura, com uso intensivo de produtos químicos, está literalmente destruindo a base de recursos – solo, água, clima – da qual depende a futura produção de alimentos. Voltemos a Iowa: este Estado perdeu metade da camada superficial do solo devido à erosão, consequência do excessivo cultivo em linhas, usando máquinas pesadas. Na última década, foram cultivados mais de 200.000 hectares de terras novas de reserva, já que os agricultores se dedicaram a plantar até na margem dos rios, procurando fazer um bom negócio graças aos altos preços dos grãos destinados à produção de etanol. O solo é um recurso renovável, mas somente se for cultivado de maneira a protegê-lo e renová-lo.

Iowa também não consegue renovar o outro recurso renovável que é a água. A agricultura desse Estado é de sequeiro, mas a água é bombeada dos aquíferos de Jordán e Dakota, com fluxos que impedem que voltem a se encher. São necessários 19 litros de água por dia para criar um porco, com 20 milhões de porcos, isso soma mais de 139 bilhões de litros de água por ano. São necessários 11 litros de água para destilar 4 litros de etanol do grão, isso equivale a mais de 45 bilhões de litros por ano. Se a produção de etanol e carne aumentar na taxa esperada, esses grandes aquíferos acabarão secando.

Ao mesmo tempo, o uso excessivo de produtos químicos necessários para grãos e soja contamina a água potável e destrói os habitats de espécies que a agricultura precisa para cultivar alimentos. Um recente relatório da Organização das Nações Unidas adverte sobre extinções em massa, enquanto outro estudo documenta o “apocalipse dos insetos”, que inclui a perda de polinizadores cruciais para os cultivos. Todas as áreas da agricultura de Iowa estão envolvidas na mudança climática e, por sua vez, são ameaçadas por ela. A agricultura industrial é uma emissora importante de gases do efeito estufa: os excessivos fertilizantes lançados nos campos de cereais de Iowa emitem nuvens de óxido nítrico, que é mais potente que o dióxido de carbono. As fazendas industriais deste Estado também contribuem quando se despejam as purinas concentradas nos campos dos agricultores.

A mudança climática torna as práticas agrícolas atuais extremamente destrutivas. Os modelos da NASA para Iowa preveem uma alta probabilidade de tempestades mais intensas, como o ciclone recente, inundações frequentes e uma crescente ameaça de secas prolongadas. Um estudo da Universidade de Minnesota estima que, em 2075, a produção de grãos de Iowa será 20 a 50% menor do que hoje.
Não é um sistema que funcione bem, e se estamos preocupados com a disponibilidade global de alimentos, nós, nos países ricos, deveríamos deixar de apostar na agricultura industrial e adotar imediatamente duas medidas simples: primeiro, reduzir o desperdício de alimentos, que descarta um terço ou mais dos alimentos produzidos em todo o mundo. Segundo, deixar de destinar cultivos e terras para a produção de biocombustível. Enquanto isso, vamos parar de alimentar a ilusão de que o aumento na produção de produtos agrícolas estadunidense ajudará a reduzir a fome no mundo.

* Timothy A. Wise, diretor do Programa de Direitos Alimentares e da Terra no Small Planet Institute de Cambridge, Massachusetts (Estados Unidos), em artigo publicado por Viento Sur, 29-07-2019. A tradução é do Cepat.

Desmatamento dispara no Xingu, um dos principais ‘escudos’ da Amazônia

Postado em Atualizado em

Destruição em áreas protegidas da bacia – que abriga 26 povos indígenas e serve como corredor ecológico para espécies amazônicas – cresceu 44,7% em maio e junho em comparação com mesmo período de 2018; para zoólogo, preservação da região é crucial para que a ciência entenda como florestas brasileiras se tornaram tão biodiversas.

João Fellet – @joaofellet – Da BBC News Brasil em São Paulo
O desmatamento em unidades de conservação na bacia do rio Xingu, nos Estados do Pará e Mato Grosso, cresceu 44,7% em maio e junho de 2019 em comparação com o mesmo período do ano anterior, reforçando a tendência de alta no desflorestamento da Amazônia e ampliando as pressões sobre um dos principais corredores ecológicos do bioma.
Porção sul da bacia do Xingu, em Mato Grosso, em imagem de satélite de junho; região serve como corredor ecológico e barreira para o avanço do agronegócio na Amazônia
Porção sul da bacia do Xingu, em Mato Grosso, em imagem de satélite de junho; região serve como corredor ecológico e barreira para o avanço do agronegócio na Amazônia

Foto: Planet Labs / BBC News Brasil

Os dados são do Sirad X, boletim publicado a cada dois meses pela Rede Xingu+, que agrega 24 organizações ambientalistas e indígenas. Além de compilar imagens de satélite, o sistema usa radares que permitem detectar o desmatamento mesmo em períodos chuvosos do ano.

O boletim diz que, entre janeiro e junho deste ano, a região perdeu 68.973 hectares de floresta – área equivalente à cidade de Salvador. A bacia do Xingu abriga 26 povos indígenas e centenas de comunidades ribeirinhas, que dependem do bom funcionamento dos ecossistemas locais para sobreviver. A região tem tamanho comparável ao do Rio Grande do Sul.

Como mais da metade da bacia é composta por áreas protegidas, ela também serve como uma espécie de escudo da Amazônia em sua porção oriental, dificultando o avanço do agronegócio pela floresta. E ela é uma das últimas áreas do bioma amazônico em contato com o Cerrado, o que lhe confere papel central em estudos sobre biodiversidade.

Quando se compara o desmatamento de maio e junho no Xingu com o do bimestre anterior, o aumento foi de 81% para toda a bacia e de 405% para unidades de conservação.

Garimpo ilegal de ouro na Terra Indígena Kayapó, no Pará; atividade se tornou principal vetor de desmatamento em áreas protegidas do Xingu
Garimpo ilegal de ouro na Terra Indígena Kayapó, no Pará; atividade se tornou principal vetor de desmatamento em áreas protegidas do Xingu

Foto: ISA / BBC News Brasil

Política ambiental de Bolsonaro

É normal que o índice de destruição cresça no meio do ano, quando o clima mais seco facilita as derrubadas, mas o tamanho do aumento foi considerado alarmante pelos autores do estudo.

Para eles, o crescimento se explica por ações do governo Jair Bolsonaro que fragilizaram o combate a crimes ambientais e por declarações do próprio presidente que estariam encorajando atividades ilícitas, especialmente o garimpo.

Bolsonaro e o ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, têm pregado uma mudança na política ambiental que reduza a ênfase em punições e considere o impacto econômico de atividades nocivas à natureza.

“O que acontece hoje no Brasil, infelizmente, é o resultado de anos e anos e anos de uma política pública da produção de leis, regras, de regulamentos que nem sempre guardam relação com o mundo real”, disse Salles numa reunião com madeireiros em Rondônia, em julho.

Bacia do Xingu, no Pará e Mato Grosso (trecho em amarelo corresponde às áreas protegidas)
Bacia do Xingu, no Pará e Mato Grosso (trecho em amarelo corresponde às áreas protegidas)

Foto: Xngu+ / BBC News Brasil

Fonte: terra.com

Seca e fome ameaçam a América Central

Postado em Atualizado em

Depois de um 2018 terrível para agricultores da região, previsão de estiagem até julho deixa 1,4 milhão de pessoas em emergência alimentar

Reservatório de Los Laureles que abastece metade dos 1,2 milhão de moradores da capital de Honduras, Tegucigalpa, afetado pela seca: água a cada quatro dias (Foto Orlando Sierra/AFP)
Reservatório de Los Laureles que abastece metade dos 1,2 milhão de moradores da capital de Honduras, Tegucigalpa, afetado pela seca: água a cada quatro dias (Foto Orlando Sierra/AFP)

O período de estiagem de 2018. na América Central foi mais longo e mais seco – e quebrou a maior parte da primeira parte da safra de milho e de feijão. O período de chuva, no fim do ano, foi mais curto, mas os temporais vieram com mais força atingindo a segunda parte da safra. A combinação levou as agências da ONU a prever que mais de um milhão de pessoas – 1 milhão e 400 mil – vão passar fome do Panamá ao sul do México.

FAO (Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura) e o PMA(Programa Mundial de Alimentos) ainda estão começando a mobilizar para arrecadar US$ 70 milhões de dólares em doações, mas o Corredor Seco – região que margeia o Oceano Pacífico, indo da costa de Chiapas, no México, até o oeste da Costa Rica e do Panamá – já enfrenta novo período de estiagem.

E fica pior. Esta semana, o Oirsa (Organismo Internacional Regional de Sanidad Agropecuaria) – que reúne o México e oito países centro-americanos – anunciou que o fenômeno El Niño vai provocar nova seca prolongada, pelo menos, até julho, agravando a situação dos agricultores. “É provável que tenhamos uma nova onda de pragas agrícolas, provocada pela estiagem”, afirmou Estuardo Roca, coordenador de um programa do Oirsa sobre mudanças climáticas.

Agricultores hondurenhos cortam árvores danificadas pela seca e pelas pragas de insetos: agências da ONU calculam 1,4 milhão de pessoas ameaçadas pela fome na América Central (Foto Orlando Sierra/AFP)
Agricultores hondurenhos cortam árvores danificadas pela seca e pelas pragas de insetos: agências da ONU calculam 1,4 milhão de pessoas ameaçadas pela fome na América Central (Foto Orlando Sierra/AFP)

Agências da ONU calculam que, até o começo de 2019, 2,2 milhões de pessoas tiveram perdas em suas plantações em El Salvador, Guatemala, Honduras e Nicarágua, segundo informações de governos. A FAO e o PMA pretendem levar comida diretamente a 700 mil pessoas e ainda usar parte dos recursos para recuperar insumos agrícolas, diversificar fontes de renda dos agricultores do Corredor Seca, estabelecer sistemas de proteção social e melhorar a adequação dos agricultores aos efeitos do clima.

Os efeitos da seca do começo deste ano – que agora, ameaça se prolongar até julho – assustam todos os países da América Central. El Salvador calcula ter perdido mais de 20 mil hectares de plantações de milho em 2018, Na Guatemala, o governo teme que 290 mil famílias de agricultores não tenham o que comer em 2019 com as quebras das safras. Em Tegucigalpa, capital de Honduras, a água está racionada – só cai nas torneiras a cada quatro dias. Na Costa Rica, 300 mil usuários estão ameaçados também pela falta d’água, pela redução do nível dos reservatórios de abastecimento – além das ameaças às plantações de arroz e batata.

As agências da ONU estimam que metade dos quase dois milhões de pequenos produtores de grãos básicos da América Central vivam no Corredor Seco. Essas famílias são formadas por agricultores de subsistência, que consomem a comida que plantam — principalmente milho e feijão.  ”Se uma safra é perdida, os pequenos produtores não têm reservas suficientes de alimentos para comer, vender e sobreviver até a próxima colheita. Precisamos melhorar a resiliência dos habitantes do Corredor Seco. A vigilância e os sistemas de alarme precoce precisam ser fortalecidos. Os efeitos de eventos como secas e chuvas torrenciais precisam ser minimizados por meio de boas práticas agrícolas, que aumentam a adaptação das famílias, fortalecendo os seus meios de subsistência e impedindo que esses eventos climáticos comprometam a sua segurança alimentar e os forcem a migrar”, ressaltou Adoniram Peraci, coordenador sub-regional da FAO para a América Central.

Fonte: projetocolabora.com.br

%d blogueiros gostam disto: