RESILIENCE – RESILIÊNCIA

100 Resilient Cities
Our work is ambitious.

That’s why we’re building an experienced and global team with deep expertise in cities and a keen understanding of how they work.

Meet our newly appointed Regional Director Eugene Zapata, who is overseeing our partnerships with cities across Latin America and the Caribbean. 

Eugene joins us from the office of Mexico City Mayor Miguel Ángel Mancera, where he was International Advisor to the Mayor and led the AL-LAs project, a network of European and Latin American cities collaborating to professionalize their work in international affairs.

Read more about Eugene’s experience in city government and what it means for the work we do – in his own words.

We’re working hand-in-hand with city and community leaders, partners and stakeholders to help cities think critically about their challenges and consider new, integrated approaches to addressing them.

Read more from Eugene and learn why we’re so excited about the future of 100RC:

100resilientcities.org/Eugene-Zapata

Menos de 1% das propriedades agrícolas detém quase metade da área rural no país

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Quase metade da área rural brasileira pertence a 1% das propriedades do país, de acordo com o estudo inédito Terrenos da desigualdade: terra, agricultura e desigualdades no Brasil rural divulgado hoje (1º) pela organização não governamental (ONG) britânica Oxfam. Os estabelecimentos rurais a partir de mil hectares (0,91%) concentram 45% de toda a área de produção agrícola, de gado e plantação florestal.

Por outro lado, estabelecimentos com menos de 10 hectares representam cerca de 47% do total das propriedades do país, mas ocupam menos de 2,3% da área rural total. Esses pequenos produtores produzem mais de 70% dos alimentos que chegam à mesa do brasileiro, já que as grandes monoculturas exportam a maior parte da produção.

O estudo mostra a cidade de Correntina, na Bahia, como exemplo emblemático dessa realidade, onde os latifúndios ocupam 75,35% da área total dos estabelecimentos agropecuários. Nessa cidade, a pobreza atinge 45% da população rural e 31,8% da população geral. Os municípios com maior concentração de terra apresentam os menores índices de Desenvolvimento Humano e aqueles com a menor concentração tinham os melhores indicadores sociais. A diretora executiva da Oxfam Brasil, Katia Maia, explicou que a concentração de terra gera desigualdade em todos os setores vinculados à produção da terra.

“Quanto maior a concentração de terra, maior a concentração de investimento, de maquinário, que vai se expandindo para diferentes setores. A modernização da agricultura não demonstrou melhora na condição de vida da população”, comentou Katia. “Números preliminares mostram que os municípios com maior concentração têm nível maior de pobreza”.

As grandes propriedades rurais com mais de mil hectares concentram 43% do crédito rural, enquanto para 80% dos menores estabelecimentos esse percentual varia entre 13% e 23%.

A reforma agrária é fundamental para reverter o quadro, mas não basta, argumentou a diretora da ONG. “O governo pode assumir medidas e políticas no mundo rural para incentivar maior distribuição, especialmente na área de investimentos, apoio técnico e programas, como o Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar e o Programa Nacional de Alimentação Escolar”, acrescentou.

A concentração de terra também contribui para a incidência de trabalho escravo, alerta o estudo. De 2003 a 2013, 82% das autuações do Ministério do Trabalho e Emprego por trabalho análogo ao de escravo ocorreram no oeste da Bahia, com grande concentração de terra. Somente em Correntina, 249 trabalhadores foram encontrados nessas condições.

O estudo agrupou os municípios de acordo com a relevância agropecuária: 1% com maior concentração de terras, os 19% seguintes e os 80% restantes, com base no último Censo Agropecuário do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2006, e o IBGE Cidades, de 2010.

Dados do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra) indicam que 729 pessoas físicas e jurídicas se declaram proprietárias de imóveis rurais com dívidas à União de mais de R$ 50 milhões cada, aproximadamente R$ 200 bilhões. Esse grupo, segundo a pesquisa, tem propriedades de área suficiente para assentar quase 215 mil famílias, quase duas vezes o número de famílias que estão acampadas hoje no Brasil esperando por reforma agrária.

América Latina

A mesma realidade ocorre na América Latina, em que 1% concentra 51,19% de toda a superfície agrícola da região. O dado está no relatório Terra, Poder e Desigualdade na América Latina, também divulgado hoje, que analisa o cenário de concentração das propriedades rurais em 15 países da região com base nos censos agropecuários locais.

O Brasil ocupa o quinto lugar no ranking da região do coeficiente de Gini – que mede a desigualdade na distribuição de terra, em que 0 corresponde à completa igualdade e 1 corresponde à completa desigualdade. A nota brasileira é 0,87. O Paraguai aparece com o pior índice de Gini (0,93), seguido do Chile (0,91) e da Venezuela e Colômbia (0,88), onde 0,4% das propriedades concentram mais de 67% da terra produtiva.

Conflitos no campo

A modernização da agricultura e os assentamentos e demarcações de terras indígenas não foram capazes de aplacar os conflitos, que já mataram 2.262 pessoas entre 1964 e 2010, de acordo com o estudo. A violência no campo pela disputa da terra ocasionou 50 mortes no ano passado e 1.217 conflitos,  segundo dados da Comissão Pastoral da Terra (CPT) e do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). O Brasil está no topo da lista dos países onde mais ativistas ambientais e da terra foram mortos em 2015, segundo outra pesquisa divulgada em junho deste ano pela ONG Witness.

Os estados mais violentos são Rondônia e o Pará. No período, foram registrados momentos de pico, em especial na década de 80, quando aumentaram as mobilizações sociais e as lutas por terra, década que também marcou a fundação do Movimentos dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST). Um novo pico foi registrado durante o primeiro governo Lula, de 2003 a 2006. Apenas em 2003 ocorreram 496 ocupações – em 2010 foram 180.

Incra

De acordo com o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), mais de 1,3 milhão de famílias já foram assentadas desde o início do Programa Nacional de Reforma Agrária (PNRA). O programa foi criado em 1996. Ao todo, 977 mil  famílias vivem atualmente em assentamentos e áreas reformadas.

As titulações estão sendo efetivadas, informou o instituto, por meio de trabalhos de revisão ocupacional em campo, “o que está sendo feito com maior expressão neste último bimestre do ano, a partir do desbloqueio de recursos destinados ao órgão”, diz a nota. “Todas as 30 superintendências estão mobilizadas neste sentido, já que foi estabelecida como meta a emissão de cerca de 70 mil títulos de propriedade até o fim do próximo ano”.

Ainda segundo o Incra, as metas para os próximos anos dependem da aprovação do orçamento a ser destinado à autarquia no início de 2017. O instituto ressaltou que o contingenciamento de gastos deste ano reduziu em cerca de 40% os recursos destinado à reforma agrária. Além disso, informou o Incra, houve alteração de diretrizes e um passivo ocasionado pelo bloqueio determinado pelo Tribunal de Contas da União (TCU), que paralisou o acesso de famílias beneficiárias às políticas públicas asseguradas pelo Programa Nacional da Reforma Agrária.

Desmatamento na Amazônia explode entre 2015 e 2016

1Ministro do Meio Ambiente admite “curva ascendente” de destruição da floresta. Nova taxa de desmatamento coloca capacidade do Brasil de cumprir acordos internacionais na berlinda

O governo divulgou o dado preliminar da nova taxa oficial do desmatamento da Amazônia. Entre agosto de 2015 e julho de 2016, foram derrubados quase 8 mil quilômetros quadrados de florestas, um aumento de cerca de 30% em relação aos 6,2 mil quilômetros quadrados registrados entre 2014 e 2015 (leia mais). A estimativa definitiva deve vir a público no início do ano que vem.

É o segundo ano consecutivo de alta no ritmo dos desmates. O número de 2014-2015 já significou um acréscimo de 24% em relação a 2013-2014, quando foram derrubados 5 mil quilômetros quadrados de mata. Entre 2013 e 2016, o desflorestamento aumentou 60%. O valor divulgado agora é o maior desde 2009 (veja gráfico abaixo).

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Dados: PRODES/INPE

Em outubro, o ISA antecipou que a nova taxa continuaria elevada (leia aqui).

O ministro do Meio Ambiente, Sarney Filho, admitiu que o país vive uma nova “curva ascendente no desmatamento”, num evento para divulgar ações da sua pasta, na manhã desta terça (29/11), em Brasília. Ele negou, porém, que a situação esteja fora de controle e insistiu que o governo estaria preparado para enfrentá-la.

“Nós estamos retomando o controle do desmatamento e tenho certeza que essa tendência vai ser revertida”, defendeu. Ele lembrou que a maior parte da taxa medida agora diz respeito ao governo Dilma.

“Durante esses últimos meses, nós tivemos sérios problemas de gestão e uma transição de governo. Tivemos a repercussão, nos últimos três anos, da mudança do Código Florestal”, justificou. Sarney Filho afirmou que o ministério não sofre cortes orçamentários e que as verbas para o combate ao desflorestamento estariam asseguradas.

Brasil na berlinda

A divulgação do novo dado coloca na berlinda a capacidade do Brasil de cumprir seus compromissos, formalizados na legislação nacional e no tratado internacional de clima, de zerar as derrubadas ilegais no País, até 2030, e de reduzi-las ao nível de 3,9 mil quilômetros quadrados na Amazônia, em 2020. O número registrado agora representa, portanto, mais que o dobro desta última meta, a menos de quatro anos do prazo previsto para cumpri-la.

“Entramos numa nova tendência, num novo padrão, que, se não for efetivamente combatido pelo governo, colocará a credibilidade do país em xeque frente às ações e a governança que ele conseguiu, com a redução significativa das taxas no passado”, avalia Paulo Moutinho, pesquisador do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (Ipam).

Ambientalistas denunciam a paralisação das ações do Plano de Prevenção e Controle do Desmatamento na Amazônia Legal (PPCDAM) nos últimos anos e concordam que a revogação do antigo Código Florestal está potencializando o avanço sobre a floresta. A nova legislação, aprovada com apoio da bancada ruralista e do governo Dilma no Congresso, em 2012, anistiou todos os desmatamentos ilegais cometidos até 2008.

“O salto no desmatamento deve ser enfrentado com medidas imediatas e contundentes. Se isso não ocorrer, a omissão do governo será interpretada pelos desmatadores ilegais como um novo sinal verde para a impunidade”, argumenta Juan Doblas, assessor do ISA.

“As políticas de comando e controle precisam ser retomadas. Elas estiveram bem capengas nos últimos anos. Está cada vez mais claro um rebate da mudança do Código Florestal. Acho que tem muita gente apostando numa segunda anistia”, complementa Tasso Azevedo, coordenador do Sistema de Estimativa de Emissões de Gases de Efeito Estufa (SEEG) do Observatório do Clima.

A pedido do ISA, ele fez um cálculo preliminar do que representam 8 mil quilômetros quadrados de florestas derrubados em emissões de gases de efeito estufa. O resultado alcança quase 140 milhões de toneladas de CO2 equivalente. O montante é igual a cerca de 7% das emissões do Brasil ou as emissões do Estado de São Paulo, em 2015.

Azevedo reconhece que a aceleração do desflorestamento deverá fazer com que as emissões brasileiras cresçam em 2016 e que as emissões de “mudanças do uso da terra” aumentem proporcionalmente em relação às emissões totais nacionais. Em 2015, as emissões brasileiras aumentaram 3,5% (saiba mais).

“A explosão da taxa reitera, com mais intensidade, o que já aconteceu no ano passado: mesmo com o PIB em queda de 4%, as emissões continuam em alta. O Brasil vaga pelo subdesenvolvimento insustentável”, comenta Márcio Santilli, sócio fundador do ISA.

Campeões do desmatamento

Pará, Mato Grosso e Rondônia continuam, nessa ordem, os campeões da destruição da floresta: eles registraram, respectivamente, 3 mil quilômetros quadrados (38% do total), 1,5 mil quilômetros quadrados (19%) e 1,3 mil quilômetros quadrados (18%) de desmatamento.

O Amazonas, no entanto, apresentou a maior alta proporcional: entre 2014-2015 e 2015-2016, o desmatamento saltou de 712 quilômetros quadrados para 1099 quilômetros quadrados, um acréscimo de 54%.

Para Paulo Moutinho, o maior aumento relativo no Amazonas está relacionado às frentes de desmatamento na região de Lábrea, no sul do Estado. Também estaria vinculado ao avanço dessas frentes fora da zona tradicional de expansão do agronegócio, em áreas públicas e com mata mais densa, o que pode, inclusive, potencializar o crescimento das emissões de gases de efeito estufa.

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ÁGUA

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A falácia do capital natural

Por Bram Büscher e Robert Fletcher*

Ao longo dos últimos dez anos, uma rede cada dia mais forte de stakeholders estratégicos e organizações não governamentais com influência e atuação internacional promoveu a ideia de um “capital natural”. Essa seria a chave para o desenvolvimento sustentável, em particular para expressar questões de conservação em termos que economistas, políticos e CEOs entendem.

No recente Congresso Mundial de Conservação, realizado pela IUCN no Havaí, o “capital natural” esteve onipresente no lançamento do Protocolo do Capital Natural e o anúncio de uma nova coalizão que visa desenvolver a financeirização da conservação.

No site do Fórum do Capital Natural, o conceito é descrito nestes simples termos: “A comida que comemos, a água que bebemos e os materiais que usamos para produzir combustível, equipamentos ou medicamentos”. Este exemplo é fundamentado na suposição de que o conceito do “capital natural” pode se tornar a base para uma economia sustentável. Mas dois argumentos principais deste programa (que a natureza pode ser vista como um capital e de prestação de serviços e que o capital pode se tornar a base para uma economia sustentável) estão baseados em enganos; enganos que agravarão os efeitos negativos da nossa economia de crescimento globalizado, e não combatê-los.

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Crescimento verde ilusório

Certificar como “capital natural” o alimento que comemos e a água que bebemos só tem sentido no contexto de um crescimento econômico que não é nosso. Nesse contexto, tudo deve ser considerado um “capital”. Em seguida, é necessário clarificar o verdadeiro significado dessa palavra. Na linguagem cotidiana e de acordo com algumas teorias econômicas, o capital é muitas vezes visto como um “estoque” ou como um conjunto de ativos. Mas, é preciso ver o capital como um processo, uma dinâmica.

Trata-se de investir dinheiro (ou valores) para ganhar mais dinheiro (ou valores). Em suma, o capital é o valor em movimento.

O capital num sistema de economia capitalista, nunca é investido para render nada. O objetivo é sempre obter mais dinheiro ou valores, muito além do que fora investido inicialmente. Caso contrário, não seria capital.

Segue-se que o deslizamento do conceito de “natureza” para o de “capital natural” não é uma mudança de terminologia inocente, que consiste na utilização de um novo termo para significar a mesma coisa. É mais uma reconceitualização, de uma reavaliação fundamental da natureza. Para os defensores do “capital natural”, a natureza trabalha para o crescimento capitalista. Isso foi então chamado de “crescimento verde” o que é um eufemismo adocicado.

Se o deslizamento do conceito de “natureza” ao do “capital natural” é um problema, é também porque ele pressupõe que as diferentes formas do capital – humano, financeiro, natural – são equivalentes e intercambiáveis.

Na prática – embora os partidários do “capital natural” o neguem enfaticamente – isso significa que tudo pode ser expresso numa unidade comum e quantitativa: dinheiro. Mas os elementos naturais, inerentemente complexos, qualitativos e heterogêneos, como esses mesmos adeptos reconhecem, não podem resultar em unidades monetárias quantitativas e homogêneas.

Além disso, existe uma contradição fundamental entre a natureza ilimitada do dinheiro (sempre pode gerar mais dinheiro) e os limites do “capital natural” (nem sempre se pode transformar o “capital natural” em capital monetário).

O conceito de “capital natural” é, portanto, intrinsecamente antiecológico e tem muito pouco a ver com a valorização da natureza ou com o fato de fazer o seu valor tangível. Esta é uma forma de exploração da natureza que tem como objetivo promover e legitimar uma economia em declínio.

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Investimento insignificante

O outro postulado dos partidários do capital natural consiste em afirmar que ele permite lançar as bases para uma sociedade sustentável. Na prática, no entanto, é claro que a maioria das empresas e governos não querem investir num “capital natural”. Assim, mesmo que se colem etiquetas de preços nos elementos naturais – sabendo que é impossível determinar o valor total da natureza – uma recente pesquisa mostra que os mercados dedicados ao “capital natural” e aos serviços dos ecossistemas estão falidos. Na realidade, não são de forma alguma mercados, mas sim subsídios disfarçados.

Além disso, os investimentos privados a favor do “capital natural” são insignificantes em comparação com os investimentos em atividades econômicas não sustentáveis. Estas atividades são muito mais rentáveis, e são uma forma do capital onde o “valor em movimento” é mais eficiente.

Quando o Governo do Equador, por exemplo, solicitou a empresas do país que conservassem a área protegida do Parque Nacional Yasuní, as promessas de investimento permaneceram bem abaixo do que se esperava e as aplicações financeiras reais foram ainda muito menores do que fora anunciado. Resultado: o país agora permite que as empresas perfurem o Parque para extrair petróleo.

Além disso, afirmar que o “capital natural” ajuda a tornar tangível o valor da natureza é um argumento hipócrita. O valor da natureza é perfeitamente visível para os investidores: eles sabem que a destruição é muito mais rentável do que investir para salvar a natureza.

Destruir sob o pretexto de proteger

De forma alarmante, o “capital natural” leva à destruição da natureza, sob o pretexto de protegê-la. Os programas baseados no “capital natural” geralmente oferecem compensar a destruição da natureza, e esta destruição gera os fundos necessários para investir na sua conservação. De acordo com a lógica do “capital natural”, os investimentos em atividades econômicas não sustentáveis são “compensados” pelos investimentos equivalentes em atividades econômicas sustentáveis.

Em teoria, esta prática deve resultar em nenhuma perda líquida – ou melhor, ainda, com um impacto líquido positivo sobre a natureza e a biodiversidade. Na verdade, ela leva a uma contradição insustentável ao induzir que a natureza só pode ser preservada se primeiro for destruída.

Mas, como mencionado, há um problema virtual porque os investimentos reais na conservação do “capital natural” são insignificantes. Pior ainda, as empresas costumam investir muito mais dinheiro em poderosos lobbies para manter a regulamentação ambiental com o mínimo controle, regulamentações e normas possíveis. Se eles sinceramente acreditassem na rentabilidade da conservação, teriam menos vontade de continuar com esse lobby.

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As perguntas difíceis

A conclusão é clara: o “capital natural” não é uma forma realista de integrar a natureza na economia ou fazer seu valor tangível. Esta é uma ilusão que agrava e legitima a crise ambiental. E se alguns acreditam no seu potencial, a maioria dos investidores que dirigem o atual sistema econômico sabe muito bem que falar de “capital natural” é ilusório.

Entretanto, fazendo a promoção deste conceito, eles também sabem que questões mais importantes sobre a lógica do sistema econômico vigente e sobre aqueles que se beneficiam, não serão formuladas.

Não é hora de sair de uma economia baseada no fetichismo de um crescimento que não é sustentável? Não deveríamos considerar a construção de uma economia centrada no ser humano, na natureza e na igualdade, em vez de insistir num investimento financeiro destinado a criar cada vez mais riqueza? Não podemos apostar numa economia centrada na qualidade de vida, em vez da quantidade do crescimento?

Com um pouco de imaginação, as respostas a estas perguntas não são apenas simples, mas também pragmáticas, lógicas e verdadeiramente sustentáveis. (Eco21/ #Envolverde)

Bram Büscher e Robert Fletcher são professores de Sociologia do Desenvolvimento e Mudança, Universidade de Wageningen.

** Publicado originalmente na edição 240 da Eco21.

Vaquejadas ‘modernas’ lesionam animais por diversão e lucro

Divulgação

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Após o STF proibir a realização de vaquejadas no Ceará, muitas foram as manifestações a favor e contra a decisão, com opiniões expressas, inclusive, neste espaço.

É importante dizer que a ação originária não visava discutir a legalidade –ou ilegalidade– da vaquejada, mas sim medir a constitucionalidade de uma lei estadual do Ceará que considerava a vaquejada uma tradição e, consequentemente, um bem cultural daquele Estado. Porém, como seria possível considerar um bem cultural algo que é aos olhos da Constituição – para não falar também de outras normas federais, como a Lei de Crimes Ambientais– uma prática ilegal?

Afinal, negar maus-tratos existentes nesse tipo de atividade não só é tecnicamente inviável como também é de um ardil intelectual de se fazer corar até os mais simbólicos políticos implicados na Lava Jato.

Para a discussão específica em relação aos maus tratos, basta uma visita aos animais nos currais de uma vaquejada para se verificar o nível de estresse dos garrotes que são enfileirados “delicadamente” para serem derrubados pelos cavaleiros. Não bastasse tal estresse, laudos da USP (Universidade de São Paulo) e da UFCG (Universidade Federal de Campina Grande) confirmam que há possibilidades de bois e os cavalos que participam do evento se lesionarem.

O laudo feito na USP comprova que a forma como os animais são derrubados em vaquejadas causa forte impacto na coluna vertebral dos bezerros, podendo levar a traumas físicos de grande extensão e até a fraturas, portanto, caracterizando-se os maus-tratos.

Já o estudo da UFCG, feito a partir de exames de cavalos vindos de vaquejadas, revela lesões e danos irreparáveis aos animais, com um percentual relevante de ocorrências de tendinite, tenossinovite, exostose, miopatias focal e, por causa do esforço feitos, de fraturas e osteoartrite társica. Ou seja, não é possível negar que há maus tratos aos animais.

Discutamos então o argumento da tradição do “esporte” vaquejada, que foi o motivador da lei cearense alvo da decisão do STF. Inegavelmente, a realização de vaquejadas pelo interior do Nordeste é uma prática secular e que visava mimetizar o labor dos vaqueiros no dia a dia, assim realizando uma competição para ver quem era o melhor vaqueiro.

Ocorre que as competições de hoje em nada tem a ver com essa tradição. Elas são megaeventos com grandes premiações e com patrocinadores, sendo que, os competidores dificilmente são vaqueiros tradicionais das propriedades nordestinas, mas sim atletas que treinam exaustivamente só para competir e que correm todo o circuito de vaquejadas do Brasil.

O argumento da tradição fica ainda mais frágil quando constatamos que as vaquejadas vinham sendo realizadas por todo o Brasil, em locais muito distantes do Nordeste. No Pará, por exemplo, chegamos ao absurdo de ter uma lei estadual que considerava tradição local uma atividade que nunca fez parte da realidade amazônica. É claro que o deputado que propôs a lei não é paraense e tampouco conhece as tradições locais, mas ele viu uma oportunidade e um nicho eleitoral-financeiro importante a ser explorado.

Dessa forma, a decisão do STF indubitavelmente resgata o artigo 225° da Constituição Federal e considera que, como disse a ministra Carmem Lúcia, “sempre haverá os que defendem que [a prática] vem de longo tempo, se encravou na cultura do nosso povo. Mas, cultura se muda e muitas foram levadas nessa condição até que se houvesse outro modo de ver a vida, não somente ao ser humano”. Dessa forma, tal entendimento corrobora com as decisões da justiça que já vinham proibindo tais eventos em vários locais do país.

De nossa parte, o Ibama, no Pará, já vinha notificando as organizações de vaquejadas antes mesmo da decisão do STF. Agora, faremos todos os esforços para banir essa prática ilegal e cruel de nosso Estado, não permitindo que animais sejam estressados, derrubados e lesionados por mera diversão e lucro de alguns.

Fonte: Uol

Seca põe Bolívia em estado de emergência

capturar0Impactos climáticos diminuem geleiras e deixam duas maiores cidades do país sem água;
estiagem é a pior em 25 anos e já causa protestos populares em El Alto, vizinha de La Paz

AN ROCHA
DA CLIMATE NEWS NETWORK

O governo da Bolívia foi forçado a declarar estado de emergência devido à pior seca em pelo menos 25 anos.

Boa parte do fornecimento de água de La Paz, a capital de maior altitude do mundo, e da vizinha El Alto, segunda maior cidade da Bolívia, vem das geleiras na região das montanhas dos Andes.

Mas as geleiras estão diminuindo rapidamente, o que ilustra como a mudança climática já está afetando um dos países mais pobres da América Latina.

As três maiores represas que abastecem La Paz e El Alto, originalmente alimentadas do degelo, estão quase secas. La Paz já está sofrendo racionamento de água, e a população pobre de El Alto, parte da qual não está nem mesmo conectada ao fornecimento principal d’água, está realizando protestos.

As Forças Armadas estão distribuindo água para as cidades, poços emergenciais estão sendo perfurados e escolas terão que encerrar as atividades duas semanas antes das férias de verão.

O Presidente Evo Morales demitiu a chefia da companhia de água por não tê-lo avisado antes sobre o perigo da situação, mas os efeitos do aquecimento global já estão evidentes há algum tempo.

Um relatório recente do Instituto de Meio Ambiente de Estocolmo (SEI) afirma: “Temperaturas na região aumentaram 0.5ºC no período entre 1976 e 2006, e a população de La Paz e El Alto pode ver as evidências da mudança climática no encolhimento da porção nevada das montanhas da paisagem. Uma geleira na região da montanha Chacaltaya – acima de El Alto e que já abrigou a maior estação de esqui do mundo – desapareceu completamente. E as duas geleiras Tuni-Condoriri que fornecem água para El Alto e La Paz perderam 39% de suas áreas entre 1983 e 2006, em uma taxa de 0.24 km² por ano.”

O SEI afirma que, se os modelos climáticos globais e regionais que preveem um aumento de 2ºC na temperatura estiverem certos, várias pequenas geleiras irão desaparecer, e outras devem encolher drasticamente.

O Instituto alerta: “Geleiras devem fornecer entre 20% e 28% da água para El Alto e La Paz. Assim, a perda de geleiras terá um impacto considerável, que será sentido particularmente durante a época de seca, em que a água de degelo é responsável pela maior parte do abastecimento urbano”.

“Os sistemas das geleiras e de água das montanhas também são importantes para a agricultura, geração de energia e para os ecossistemas da região.”

O problema é acentuado em El Alto, um aglomerado de mais de 1 milhão de habitantes que migraram das regiões rurais. A população da cidade cresceu pelo menos 30% entre 2001 e 2012, e a área urbana se expandiu em 144% na última década, chegando aos campos abertos ao sul e oeste. Até 2050, a população deve dobrar.

O SEI acredita que uma das causas deste fluxo crescente para a cidade será a mudança climática. “Evidências da história de El Alto indicam que os períodos de crescimento mais rápido da população coincidem com períodos de seca, inundações e colheitas fracas associadas aos fenômenos El Niño e La Niña.

“Os anos de 1985 a 1987, quando a migração para El Alto atingiu 65.000 novos imigrantes, também foram anos de colheitas pobres.”

Em 2009, a demanda de água em El Alto já havia superado o fornecimento, e esse fornecimento está sob ameaça crescente à medida que o aquecimento global derrete as geleiras.

A Bolívia não pode contar com novas fontes para resolver sua crise hídrica, devido aos custos e potenciais impactos climáticos. Um dos maiores desafios para o país nos próximos anos será planejar e implementar estratégias para gerenciar água sob condições climáticas incertas.

Métodos de conservação e reciclagem serão necessários para aumentar a resiliência do sistema hídrico de cidades bolivianas às mudanças climáticas, afirma o SEI.

As cidades também precisarão encontrar maneiras de reduzir o consumo, especialmente de indústrias e empresas, mas também do comportamento extravagante de um número pequeno de consumidores domésticos ricos.

O relatório do SEI recomenda que as comunidades participem na elaboração de estratégias e tomada de decisão sobre o gerenciamento de recursos hídricos. Mas, no momento, o único papel para as comunidades afetadas é o de protesto.

Este texto foi originalmente publicado no site Climate Home; é republicado pelo OC por meio de uma parceria de conteúdo